
Publicado em 24/10/2011
Cúpula da União Europeia: sururu na área
Por: Flavio Aguiar
A crise do euro clima esquenta o clima no encontro entre países do velho continente, principalmente entre França e Inglaterra
Nomalmente, as mais recentes cúpulas da União Europeia ou da zona do Euro põem, de um lado, os atores principais, França e Alemanha, e do outro lado, a plateia: os países restantes, com Grécia, Portugal e Irlanda no cantinho, de castigo, enquanto Itália e Espanha vão esquentando as orelhas, preparando-se para o pior.
Mas desta vez houve um novo script. Segundo testemunhas citadas pelo The Guardian, na parte a portas fechadas rebentou uma discussão violenta entre o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e o primeiro ministro britânico, David Cameron. No ponto máximo da exaltação Sarkozy teria, inclusive, imitado o gesto deselegante do rei espanhol Juan Carlos em relação ao presidente venezuelano Hugo Chavez e dito (gritado) para Cameron "calar a boca" sobre o euro. Sarkozy teria dito ainda que, como Cameron "nunca gostara do euro", ele deveria parar de dar palpites sobre o assunto.
O motivo da exaltação toda foi a insistência de Cameron em obter garantias sobre o comportamento dos países da zona do Euro (dos 27 países da UE só 17 pertencem a esse clube) em relação à própria moeda, temendo que o aprofundamento da crise provoque uma recessão continental, além de um desarranjo completo no sistema bancário europeu.
A insistência de Cameron que, por outro lado, externava uma preocupação geral do continente, tinha uma razão interna. Nesta segunda-feira (24) ele enfrenta uma proposta no parlamento de Londres de se realizar um referendo no país sobre se o Reino Unido deve permanecer na UE ou não, ou ainda permanecer, mas renegociando sua posição em relação a Bruxelas. Cresce até mesmo em seu próprio partido conservador a oposição em relação à União Europeia. (Na própria segunda à noite a Câmara dos Comuns (=Deputados) britânica rejeitou a proposta de referendo por 483 votos contra 111. Mas o resultado foi tido como uma derrota para Cameron, porque quase 100 deputados do seu partido se rebelaram, votando a favor do referendo ou se abstendo).
Quanto à cúpula em si, ela não saiu do lugar no que se refere à crise da moeda e do sistema financeiro. Avançou apenas no sentido de afirmar que as medidas relativas ao euro deveriam ser debatidas na cúpula geral.
Os desafios da moeda são: aumentar o Fundo de Emergência para socorro da moeda, e definir seu alcance e modus operandi; recapitalizar o sistema bancário, o que tem uma dimensão européia e depende da primeira questão; avalizar a nova parcela de empréstimo para a Grécia, a ser paga em novembro, e discutir que tipo de corte será feito na dívida grega, além de definir qual será o prejuízo dos bancos credores.
No que se refere à primeira questão, as decisões serão tomadas, na verdade, em reunião em separado entre a França e a Alemanha. Na semana passada, Ângela Merkel e Nicolas Sarkozy anunciaram um acordo sobre o euro e o Fundo de Emergência, mas que só dariam detalhes no fim do mês ou em novembro, antes da ou na reunião de cúpula do G-20, em Cannes. Depois ficou claro que, na verdade, Sarkozy e Merkel tinham chegado a um acordo sobre qual era o desacordo.
Este se refere justamente ao modus operandi do fundo. Sarkozy queria que esse "novo fundo" (cujo montante será de 1 ou 2 trilhões de euros, segundo diferentes fontes) tenha poderes de interferir diretamente na crise financeira, emprestando dinheiro a países e bancos em dificuldade. Merkel, que sempre joga mais na retranca, prefere que ele aja como uma espécie de "seguro", garantindo parcialmente os investimentos de instituições privadas que se disponham a comprar letras dos países em dificuldade.
Diante da intransigência alemã - apoiada pela Holanda e pela Finlândia - Sarkozy teria se resignado a aceitar a segunda alternativa. Talvez por isso mesmo tenha descarregado sua fúria sobre Cameron. De qualquer modo, as decisões finais e seu anúncio ficaram (espera-se) para quarta-feira.
Enquanto isso, na sala ao lado, (e à esquerda da UE!) o FMI manda recados urgentes tanto para a cúpula como para os países da zona do euro, dizendo que é necessário agir rápido, mandar para a Grécia incondicionalmente os fundos que ela precise, cortar logo a dívida grega e recapitalizar o sistema financeiro, diante do risco de uma quebradeira desordenada e geral.
A reunião do fim de semana terminou sem decisões definitivas. O sururu - quer dizer - a reunião continua na quarta-feira.










