
Publicado em 16/12/2009
Clima quente, morno e frio em Copenhague
Por: Flavio Aguiar
Em Copenhague há temperaturas para todos os gostos, apesar do frio que impera na cidade.
Na Conferência sobre o clima mundial, há de tudo. A resistência dos governos (conservadores, neo-conservadores, semi-liberais, neo liberais, etc.) dos países ricos em assumir compromissos sobre o desaquecimento e a sua sofreguidão em desassumir compromissos já assumidos no protocolo de Quioto quase levaram a Conferência a um congelamento.
Salvou-a a quente resistência dos países pobres, sobretudo dos mais pobres na média, os africanos, cujo protesto voltou a colocar na ordem do dia a necessidade de um acordo mais abrangente que delineie responsabilidades definidas. É com esta consigna na pauta que, a partir de quinta-feira, 17/12, chegam à capital dinamarquesa os principais chefes de estado, entre eles os presidentes Lula e Barack Obama.
Mas é possível que tudo desande numa espécie de banho-maria morno sobre o clima, com declarações de princípio e remissão de acordos mais definidos para o futuro, seja o próximo, ou mais distante. Parece possível que os governantes dos países desenvolvidos levem a sério uma piada de e sobre o famoso economista, Lord Keynes. Perguntado por um repórter se suas previsões apontavam para uma catástrofe da economia mundial em 200 anos, o grande economista do bem estar social teria respondido: "sei lá. Até lá estaremos todos mortos".
Mas fora do recinto da conferência é que o clima anda quente mesmo. Milhares de manifestantes têm acorrido à capital dinamarquesa para sobrarem soluções mais vigorosas sobre a catástrofe que pode se abater sobre as novas gerações. E os confrontos com a polícia tornaram-se inevitáveis.
Em parte, esses confrontos, que no começo foram localizados e sem grande importância, cresceram em volume com a aplicação, por parte dos policiais, de uma "tática preventiva". Ela consiste em prever e neutralizar prováveis focos de tensão, através de incursões e prisões em massa. Pelos relatos que têm saído na imprensa européia, essa tática levou à prisão indiscriminada de ativistas de toda espécie, inclusive daqueles cuja intenção pacifista era manifesta. Os conflitos, como dizia o presidente Figueiredo no fim da ditadura, "recrudesceram".
A atitude da polícia nesta conjuntura expõe uma falha grave cuja presença tem sido observada em diferentes países da Europa e em diferentes circunstâncias: uma falta de adequação ao mapa de fato deste continente, povoado por migrantes, imigrantes, jovens desempregados, e multidões que acorrem aos eventos num número cada vez maior, com um crescente descentramento de atitudes, propostas e ações.
As atitudes policiais terminam favorecendo e incitando aqueles que, do outro lado da barricada, querem de qualquer modo e sob qualquer ou mesmo sem qualquer pretexto, partir para o quebra-quebra e a porrada, esvaziando as manifestações de sua repercussão política mais consistente, pelo menos imediata. Forma-se assim um círculo vicioso e viciado, em que se prevê que os que ganharão as manchetes serão os portadores de coquetéis molotoves improvisados e cassetetes previsíveis, forjando uma falsa impressão de irresponsabilidade por parte dos manifestantes. A imprensa sensacionalista agradece, obrigado, e também o pensamento conservador.
Mas é verdade que dos que acorreram à Copenhague, a grande maioria está cobrando uma ação mais eficaz de todos perante a catástrofe que poderá acometer as próximas gerações. No dizer tão elegante quanto alarmante de um amigo meu, que pede para ficar anônimo, nós, os mais velhos, já estamos olhando nos olhos dos que verão a perdição ou a salvação do mundo.










