
Publicado em 27/11/2009
Bombas no Afeganistão explodem em Berlim
Por: Flavio Aguiar
A primeira versão da notícia foi a mais dura: o Ministro da Defesa da Alemanha, Karl-Theodor zu Guttenberg demitiu o Comandante-em-Chefe do Exército Alemão, General Wolfgang Schneiderhan. De quebra, foi também o Secretário da Defesa Peter Wichert. (www.t-online.de) (26/11/2009).
Depois veio uma versão mais "soft": ambos os demitidos teriam "pedido demissão". De qualquer modo, a crise é grave. Tão grave que na sexta-feira, 27/11, produziu mais uma vítima: o Ministro do Trabalho, Franz Josef Jung, um colaborador próximo da chanceler Ângela Merkel, renunciou ao cargo.
Motivo: no dia 4 de setembro o comandante das tropas alemãs que, como parte da OTAN, estão na inóspita região de Kunduz, no norte do Afeganistão, pediu o bombardeio aéreo de dois caminhões-tanque carregados com gasolina, tomados pelos talebãs. No momento do bombardeio, uma pequena multidão esvaziava a gasolina de um dos veículos, que atolara ao cruzar um rio da região. Duas bombas foram lançadas e tudo foi pelos ares, matando mais de uma centena de pessoas.
Entretanto, desde o dia 6 de setembro um relatório secreto já dava conta que entre os mortos havia inúmeros civis, entre eles adolescentes e crianças. Atraídos pela gasolina, habitantes de uma vila próxima tinham se misturado aos talebãs na esperança de conseguir algum combustível.
O relatório foi confirmado por um relatório do governo afegão: houve pelo menos 142 mortos, e destes, um número entre 30 e 40 seriam civis. Além disso, já havia relatos também de inúmeros feridos civis atendidos nos hospitais da região.
Seguiu-se um jogo de empurra-empurra quanto à responsabilidade pelo ataque, entre a aviação norte-americana (que despejou as bombas) e o comando alemão em terra (que pedira o ataque). Mas o mais grave de tudo é que os relatórios oficiais foram mantidos em segredo, enquanto as autoridades alemãs responsáveis pela área - o comandante Schneiderhan inclusive - garantiam ter informações seguras de que as vítimas eram apenas guerrilheiros talebãs.
Ao se inteirar do episódio, a chanceler Ângela Merkel prometeu uma investigação completa. Entretanto, a bomba só explodiu em Berlim no dia 26 de novembro, quando a edição do jornal Bild revelou, com exclusividade, não só o conteúdo do relatório, como algumas das fotos que o acompanhavam.
As reações foram imediatas e a notícia das demissões entraram na internet pouco depois do Bild chegar às bancas. Explique-se que o Bild é um jornal considerado nos meios jornalísticos como uma mistura de sensacionalista e conservador. Algo assim como se fosse uma mistura do antigo Notícias Populares com a Veja de hoje.
O caso respingou feio no então Ministro da Defesa, Franz Josef Jung (da União Democrata Cristã, partido da chanceler Merkel), o superior imediato tanto do Secretário Wichert como do General Schneiderhan. Interpelado duramente pelos deputados da oposição no Bundestag (Congresso) alemão, onde tem assento, Jung saiu-se mal, dizendo nada saber porque não tinha lido o relatório. A emenda foi pior do que o soneto, porque, como declararam os oposicionistas à mídia, é inadmissível que um Ministro da Defesa não lesse o material relevante sobre um caso que desde o início fora tratado como controverso e potencialmente contundente - pois com certeza influenciou na votação nacional que hove ao final daquele mês. Afinal, na sexta-feira 27 Jung admitiu que sabia desde o início sobre a existência de vítimas civis, e a seguir renunciou ao novo cargo que tinha no governo, o de Ministro do Trabalho.
Toda a confusão aumentou ainda mais a repercussão negativa não só da presença das tropas alemãs como da OTAN como um todo no Afeganistão. Certamente haverá novas investigações, porque o caso põe em dúvida a transparência das informações sobre uma guerra que parece cada vez mais problemática e sem futuro.










