
Publicado em 03/05/2010
A disciplina da euroburca
Por: Flavio Aguiar
Mulher de burca em meio a uma tempestade de areia nas proximidades de Balkh, no Afeganistão. Longe dali, na Europa, vestimenta é uma das polêmicas no velho continente (Foto: Dirk Haas/Flickr)
Euroburca? Que será isso? Euro é uma coisa, uma moeda. Burca é outra coisa, uma vestimenta. Está certo que com uma coisa se compra a outra, por exemplo. Mas são reinos distintos, não?
Não. Hoje participam ambos de uma empreitada comum: dobrar mais ainda os já dobrados.
Espero que nas próximas linhas eu possa explicar-me.
O euro
Há hoje na Europa uma empreitada de 140 bilhões de euros (a bagatela de 329 bilhões de reais, ao câmbio oficial, que é sempre menor do que aquilo que a gente paga no banco) para “salvar a Grécia”. Salvar a Grécia? Também o euro, a moeda que é o fio a prumo da União Europeia. Se a Grécia quebrar, ou tiver que ser expulsa da zona do euro, esta vai virar de fato uma “zona”, no sentido chulo do termo.
Para tanto, a União Europeia aceitou ser tratada como um paiseco de terceiro mundo: isto é, engoliu a intervenção do FMI e de seus ditames, que não ficarão, por certo, restritos apenas ao caso grego.
140 bilhões de euros. Para quem? Certamente não para o povo grego. O pacote de socorro à Grécia implica uma disciplina férrea a ser imposta a ele. Como se fazia no Brasil aos tempos em que éramos devedores e beijadores da mão do FMI. O que significa essa disciplina? Congelamento de salários, de pensões, de aposentadorias, cortes nos investimentos do Estado, ou seja, menos saúde, menos educação, mais privatizações, etc. Tudo o que conhecemos de sobejo na América Latina, como receita de “modernização”, ou “Consenso de Washington”.
Em consequência, as centrais sindicais gregas estão chamando uma greve geral para esta quarta-feira. E têm razão: não se trata apenas de enquadrar o governo do Partido Socialista grego de George Papandreou. Trata-se deste Consenso de Bruxelas (sede da Comissão Europeia) derrotar e enquadrar o movimento dos trabalhadores gregos.
Trata-se de “disciplinar” a Grécia, adequando-a ao consenso capitalista hegemônico pós-moderno. Esse consenso levou a essa crise portentosa que destruiu poupanças pelo mundo? Ora, não são os bancos que estão no banco dos réus. Os capitais financeiros preparam-se para dar botes na Grécia (saltando fora) e em outros países cujas finanças estão comprometidas, como Portugal e Espanha. Regulá-los? É uma boa conversa.
Mas daí a partir para a ação, é outra história. Melhor disciplinar os trabalhadores gregos, e o seu governo: tornar aqueles desorganizados, este igual aos outros partidos social-democratas europeus: dóceis aplicadores das receitas neoliberais, como aconteceu no Reino Unido, na Alemanha etc.
A burca
Por outro lado, na sede da União Europeia, Bruxelas, outro evento de monta se produzia. Pela primeira vez na história um governo (o belga) proibiu o uso da burca em público. Burca? Aquela vestimenta de mulheres muçulmanas que recobre todo o corpo, só deixando uma fenda para os olhos. As “contraventoras” estarão sujeitas a multas pesadas (!) e a alguns dias de detenção (!!).
Novamente, o que está em jogo é uma questão de disciplina. Disciplinar a paisagem urbana. Como sempre, bate-se no elo mais fraco (como no caso dos trabalhadores gregos). Nesse caso, as mulheres.
Por acaso, sou eu favorável ao uso da burca? Decididamente, não. Mas sou favorável à liberdade de se vestir como bem se aprouver. Alguém já pensou em proibir a batina aqui na Europa? Ou o solidéu dos judeus? Ou aqueles chapéus pretos, casacões compridos e roscofes pendentes nas orelhas? Alguém pensou em proibir os “darks” de usarem aquela parafernália pendurada nos lábios, nas orelhas, nos umbigos e seus cabelos verdes, pontudos, roxos etc.? Ou o turbante indiano ou ainda o dos árabes, com aquele vestidão de anjo que eles usam? Nem pensar.
Agora, (e esse é o novo ângulo que quero explorar), proibir mulher de usar isso ou aquilo, ah, isso pode. É à vontade, é só votar e ir proibindo. Por quê? Porque ofendem a cultura ocidental? Não – porque são mulheres, e “nós” (por favor, incluam-me fora disso) gostamos de disciplinar mulheres.
Por que não se proíbe então que as freiras usem hábitos? Ou que as baianas usem balangandãs, ou que as hindus usem aquela pinta na testa, no alto do nariz?
Ah, é porque estas são muçulmanas, e isso é um insulto à nossa civilização. “Nós” temos “a obrigação” de “libertá-las”. “Nós” sabemos “o que é melhor” para elas. E como já são (supomos) oprimidas, então podemos oprimi-las um pouco mais, ameaçando com multas, prisão etc., em nome de proteger um espaço cultural que queremos “livre” de interferências “nocivas”.
Não há dúvida de que existe um machismo islâmico. Assim como existe um machismo cristão, judaico, budista, candomblêico, comunista, governista, oposicionista etc. A burca, ao que parece, assim como o véu e as vestimentas largas que cobrem as ligaduras do corpo, do pescoço ao tornozelo, são fruto desse machismo.
Ao começo, eram apresentadas essas vestimentas como “protetoras” das mulheres da prostituição e da cobiça alheia. Sendo algo obrigatório, podem tornar-se opressores, é claro. Mas o fato é que milhões de mulheres querem vestir-se assim.
Estarão se mutilando? Não mais do que os cortejos de mulheres que cedem aos ditames da moda e do culto à falsa juventude, fazendo esforços desesperados e exasperantes para ocultar rugas, esmaecimentos de pele e outras marcas do tempo que, na verdade, ao bom olhar, só as tornam mais atraentes.
É claro que o melhor seria vivermos num caldo de cultura onde cada um de fato pudesse usar ou não o que quisesse sobre o corpo, desde que não ofendesse o decoro dos indefesos (como as crianças). Temos milhares de quilômetros a percorrer até chegar a esse mundo. Mas não será oprimindo os elos frágeis da cadeia social que chegaremos lá.
Alguém de direito deveria contestar a constitucionalidade dessa lei votada pelo Parlamento belga. Deveria levar o caso até as cortes da União Europeia. Ia dar pano pra burca, quero dizer, manga.










