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Publicado em 18/01/2011

A crise e um 'estatismo renovado'

A crise e um 'estatismo renovado'

Greves contra perda de direitos dos trabalhadores sacodem a história recente da Europa (Foto: Reuters/Arquivo)

O jornalista Christoph Schwennicke, da redação do jornal alemão Der Spiegel publicou um interessante e provocativo artigo analisando por que a economia do país dá mostras de recuperação, ainda que não esteja "fora de perigo".

Seu ponto de partida, curiosamente, são as declarações do ex-chanceler conservador Helmut Kohl, alertando que os governantes e os economistas alemães não deveriam "seguir modas". A "moda", no caso, foi a propulsão neo-liberal que varreu, segundo o jornalista, o "mundo anglo-saxão", EUA, Reino Unido, Irlanda, com suas privatizações aceleradas e a perda de vitalidade do seu sistema de previdência pública.

Mostra ele também que quem sucumbiu a essa "moda", na Alemanha, foi o governo social-democrata (com os Verdes de parceiros minoritários) de Gerhard Schröder, a quem ele acusa de ter liderado muma tentativa de "desossamento" do sistema previdenciário alemão.

O resultado, segundo ele, foram desastres para os pensionistas que aderiram à banca privada, e que agora se vêem (muitos) na contingência de abandoná-la e de retornar ao sistema público, descrito antes como "velho e obsoleto", para evitar perdas maiores sob a forma de investimentos sem retorno.

Ainda afirma Schwennicke que uma das medidas que se pode ter do que aconteceria na Alemanha em conjunto, caso ela tivesse aderido completamente à febre neo-liberal - como seria a proposta dos social-democratas ao começo do novo século e fim do antigo - está na empresa estatal Deutsche Bahn. Administrada com padrões de empresa privada, a DB perdeu a aura de "eficiênca alemã" que a emoldurava. A cada inverno, as crises se acumulam. Em Berlim periodicamente o metrô rápido e de longa distância (o S-Bahn, S de schnell, rápido) apresenta crises de funcionamento que tiram uma grande parte de seus trens de circulação, para desespero dos usuários, que não têm substituto à altura.

O artigo argumenta que apenas um "estatismo renovado" pode fazer frente à atual crise financeira e da moeda do euro. Por quê? Porque, segundo ele, só o Estado tem "força e capacidade de resistência" de longo prazo parea tomar medidas consistentes; apenas o Estado pode agir com legitimidade democrática para ver "acima" dos interesses particulares e articular o que for necessário para consolidar o bem comum. Nenhum agente privado, por mais robusto que seja, alcança esse ponto de vista mais amplo, porque isso é contrário à sua própria natuereza.

Schwennicke não está falando de socialismo, é claro. Está falando de uma administração do espaço público voltada para a consolidação deste espaço, não o contrário. A conclusão que tira disso é que, ao contrário do que pensam os mais conservadores hoje na Alemanha, o que se necessita na região é "mais Europa", quer dizer, mais coordenação e consolidação dos poderes da União Européia para articular políticas comuns através e com os estados nacionais. Só isso, segundo ele, pode alavancar o euro para longe de sua dissolução.

Acho que nem o PSDB nem o DEM vão gostar do artigo.

 

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Flavio Aguiar

Flávio Aguiar

É colaborador em Berlim. Toda semana traz suas análises nada convencionais sobre o que acontece na Europa e no mundo. Leia mais.

 
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