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Publicado em 28/01/2010

Me dá um pouco do seu bem viver?

Por: João Peres, direto de Porto Alegre

Seriam os atrasos uma forma de a esquerda nacional se diferenciar da neurose direitista por horários e protocolos?

Direto de Porto Alegre - Os atrasos são parte do protocolo do Fórum Social Mundial. Começar fora do horário, muito fora do horário, estranhamente sempre foi um orgulho para a esquerda brasileira.

É possível que alguém saiba a origem disso. Talvez, em algum momento, tenha sido uma maneira de se diferenciar da direita, neurótica com horários e protocolos, algo assim.

O fato é que aqui, em Porto Alegre, os eventos vão entrar em competição para ver quem começa com o maior atraso. Parece aquela rodada final do Brasileirão em que uma partida depende da outra e acha que leva vantagem quem retardar um pouquinho mais o pontapé inicial.

O atraso mínimo é de 45 minutos e a média é de uma hora, podendo facilmente atingir o pico de uma hora e meia. Curiosamente, discute-se outro mundo possível por aqui.

Talvez se imagine que, nesse outro mundo, todos terão mais tempo disponível para uma boa prosa e, por isso, não é preciso ter pressa.

Mas, enquanto isso não se concretiza, quem pena são los de abajo. Por exemplo, o evento desta quarta-feira (27) na Assembleia Legislativa gaúcha discutia o bem-viver, ou seja, um modo de que todos vivam com qualidade de vida. Começou às 9h50. Dentro do horário previsto, portanto, nove da matina.

Bobo é o jornalista que ainda chega no horário, penso eu. Quando finalmente começam os debates, e lá se vai uma hora sentado na cadeira, ninguém fala dentro dos minutos protocolares, claro, e estender-se pelo dobro do previsto também é regra.

Resulta que acaba sempre depois de uma da tarde a discussão que deveria ter se encerrado, no máximo, ao meio-dia.Os painelistas têm pela frente uma tarde livre para irem aos outros debates. Quem acompanha o Fórum de perto ganha duas horas para comer e ir à programação da tarde, considerando que haverá mais uma hora de lambuja de atraso.


O jornalista, no entanto, precisa escrever sobre os debates da parte da manhã, engolir alguma coisa e novamente imaginar, erroneamente, que pela tarde um outro mundo será possível e tudo vai começar no horário. Ele avança pelas ruas, pega o primeiro pastel que aparece pela frente e chega ao outro evento. Por lá, desolado, dá-se conta de que vai esperar mais uma hora.

E que o evento da tarde, portanto, vai acabar quando a noite gaúcha estiver caindo. Ele ainda precisará escrever o que o cérebro permitir e, claro, comer aquilo que não comeu no almoço.

Na próxima edição, bem que os organizadores do Fórum poderiam pensar no bem-viver dos repórteres. Ou distribuir porções em pacotinho.

-Me dá um pouco de bem-viver?
-Claro. Vai querer de 300 ou de 500?
-Não, hoje vou me acabar. Quero um litro. E pode mandar direto na veia

Enquanto isso não acontece, alguém tem um pouco de bem-viver para me dar?

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Comentários

Ótimo

Ótimo, simplesmente ótimo.
Postado por Antônio Carlos Teixeira em 10:36

Erro no comentário anterior

Ao final, a frase correta é: "Ai do professor que começar sua aula só com 14 minutos de atraso", e não 15 como saiu. Flávio
Postado por Flavio Wolf de Aguiar em 11:00

Atraso pontual

Caro João
Console-se. Aqui na Alemanha, onde moro, todo mundo é pontual. Até a esquerda. Mas nem por isso todo mundo é mais feliz.
Até os atrasos são pontuais. Na universidade, as aulas estão marcadas para a hora certa: 10 horas, 12 horas, 14 horas. Mas todo mundo sabe que as aulas sempre começam com um atraso pontual de 15 minutos. É o chamado "atraso acadêmico". Ai do professor que começar sua aula só com quinze minutos de atraso. Mas ai do aluno que chegar com 16 minutos de atraso, ao invés de 15! Melhor que isso, só na Suíça. Flávio Aguiar, de Berlim.
Postado por Flavio Wolf de Aguiar em 11:00

Comentário

Provavelmente não faça parte de um outro mundo atender aos apelos dos jornalistas... assim como não faz parte desse.
Vá na fé!


Postado por Juliane Oliveira em 11:01
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