Publicado em 10/02/2011
Dacar (Senegal) – O Fórum Social Mundial deveria intensificar a atividade política e aproveitar melhor as informações que estão em circulação, como as que vazam pelo sítio Wikileaks. A opinião é do pensador português Boaventura de Sousa Santos. “A comissão de Comunicação tem que ter um papel muito mais ativo, mais interveniente”, diz ele. “Precisamos de mais análise e organização profissional, produzindo anualmente um relatório econômico mundial, sobre o mundo que queremos e o mundo que não queremos, que não pode ser igual ao do Fórum Econômico Mundial ou o da ONU (Nações Unidas).”
Para Boaventura, o encontro, que já está na décima primeira edição, não pode perder suas características, mas deve se transformar. “É um ano de grande reflexão sobre as mudanças que têm que ocorrer dentro do próprio fórum. Penso que já há um consenso de que ele tem que ser esse espaço maravilhoso, aberto, de face à face, de encontros a cada dois anos, mas também tem que ser algo mais. Temos que intensificar a atividade política do fórum”.
Autor de mais de 30 livros, entre eles Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social; Refundação do Estado na América Latina; A Ascenção da Esquerda Global: O Fórum Social e Além; e Fórum Social Mundial: Manual de Uso, Boaventura acredita ser esta a hora de “intensificar as formas de educação e comunicação entre os movimentos. Ainda temos muitas dificuldades nessa articulação e na estratégia”. Como algo a ser criado, ele cita a Universidade Popular dos Movimentos Sociais, em termos continentais.
Sobre os temas debatidos este ano, o acadêmico, que é diretor do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, destaca a própria África, que recebe o fórum pela segunda vez (a primeira foi em Nairóbi, no Quênia, em 2007). “Penso que a África vai ter outra centralidade nos negócios do mundo”, afirma Boaventura. “Hoje, é a ainda um continente onde o neoliberalismo – que já esteve muito presente na América Latina e hoje já não é tanto – ainda está muito dominante. Infelizmente, aqui, a União Europeia faz o mesmo papel dos Estados Unidos na América Latina. Mas a resistência contra isso está muito evidente aqui, com os africanos na defesa da sua economia familiar, das suas sementes, sua agricultura, sua terra. O fórum é um enorme sucesso para a África, sobretudo.”
As revoltas sociais vividas no Egito e na Tunísia nos últimos meses são, segundo ele, uma prova de que a África é um “continente em movimento”, e que as transformações políticas "provavelmente não serão confinadas a esses países”.
“O fórum é a escola mais rica de cultura política que nós inventamos, mas também é a mais frágil, pois é uma coisa simples”, diz Cândido Grzybowski, diretor-geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e do Comitê Internacional do Fórum Social Mundial. Segundo ele, reduzir o número de atividades este ano (de 5 mil para cerca de mil) foi positivo. “O temário foi o mais avançado de todos os fóruns. É o mais bem concentrado e articulado. Há uma convergência entre os temas. Já não é mais 'contra o FMI', ou 'contra o Banco Mundial', 'G8', ou 'G20'. É uma mudança ligada à crise do neoliberalismo, que ninguém acredita mais que possa se recuperar. Estamos tentando construir alternativas”, afirma Cândido.
Para a peruana Gina Vargas, da Articulação Feminista Marcosul Latinamérica, os obstáculos logísticos foram superados com discussões produtivas.“Estamos abrindo novas perspectivas que me parecem fundamentais para pensar outros mundos que sejam possíveis, libertos, plurais e democráticos”.
Para o empresário Oded Grajew, um dos criadores do Fórum, o eixo central das atividades ligadas ao Brasil foram as articulações em torno da Rio+20, conferência que pretende rever o cumprimento da Agenda 21 de crescimento econômico, desenvolvimento social e proteção ambiental estabelecida na Conferência Rio 92.
“É uma grande conferência mundial sobre a economia chamada de verde, modelo de desenvolvimento que faz com que a vida, no decorrer do tempo, seja melhor, e não pior. Aqui se articulam vários movimentos para que a Rio+20 produza os resultados que a gente espera”, afirma Grajew. Mas, diz ele, o mais importante é o que vem depois. “Todos nós militamos fora do fórum. O fórum dá a oportunidade das pessoas e organizações colocarem para todos as suas causas e se articularem com outros para ter mais força política para fazer as coisas acontecerem”.
Fonte: Agência Brasil
Publicado em 09/02/2011
Dacar (Senegal) – Entidades brasileiras ligadas ao movimento negro aproveitam o Fórum Social Mundial na África para trocar experiências e ideias com ativistas de outras partes do mundo. A Organização das Nações Unidas (ONU) definiu 2011 como sendo o Ano Internacional dos Afrodescendentes.
“Essa determinação nos leva a estabelecer um compromisso de discutir quais os avanços e quais os desafios que temos ainda pela frente para melhorar a qualidade de vida do povo negro no mundo”, diz Gilberto Leal, da Coordenação Nacional de Entidades Negras. “O papel da diáspora está sendo rediscutido, em face do chamado renascimento africano.”
Segundo Leal, há três propostas em pauta para a discussão do movimento negro, que vai optar por uma para apoiar. “A Odeco (Organização de Desenvolvimento Étnico Comunitário, de Honduras) propõe um encontro este ano. A Alai também quer discutir o tema em maio, para fazer o mapeamento do desafio das organizações negras para um avanço mais revolucionário, não apenas submetido aos governos. E a outra proposta vem de uma associação americana, da filha de Malcolm X, para um encontro em Nova York. Estamos estudando qual vamos apoiar”, afirma.
“O esforço pela libertação do povo negro continua, e de várias formas”, diz Melanie, ativista norte-americana que está no Senegal para o Fórum Social. “Na cultura, na alimentação, nos direitos das mulheres, nos cuidados com saúde, no combate ao HIV/Aids, homofobia. São lutas que não podem ser desconectadas.”
Além de debates, o Fórum também é um espaço para a troca de experiências. Uma delas está sendo demostrada na via da principal entrada do campus da Universidade Cheik Anta Diop, onde ocorre a maior parte das atividades. Uma plantação circular, com um pequeno galinheiro no meio, chama a atenção de quem passa.
É um protótipo do modelo de produção familiar desenvolvido pelo engenheiro agrônomo senegalês Aly Ndjai, que estudou no Brasil. “Trazer isso para cá é um sonho antigo”, diz. “A África cansou de depender. E com tecnologias desse tipo – fáceis de replicar, de alto impacto e que podem ser feitas pelos senegaleses e para os senegaleses - não podia ter alegria melhor.”
O modelo desenvolvido por Ndjai está implantado em 22 estados brasileiros. Um dos lugares é a fazenda orgânica do ator Marcos Palmeira, localizada em Teresópolis/RJ, a Vale das Palmeiras. Ele também está em Dacar e participa do Fórum Social Mundial.
Fonte: Agência Brasil
Publicado em 07/02/2011
Dacar (Senegal) – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou do Fórum Social Mundial uma postura firme diante da posição dos países ricos em relação à África. “Penso que o fórum deveria tomar uma decisão: não é possível que o mundo rico não assuma um compromisso com o Continente Africano, exatamente no momento em que o preço dos alimentos sobe no mundo inteiro. Não pensem que o G20 tem sensibilidade para o problema da fome. Só fomos chamados para reuniões com os países ricos quando eles entraram em crise e precisavam do nosso apoio”, afirmou Lula.
Lula ganhou aplausos dos representantes dos movimentos sociais que lotaram o auditório, entre eles muitos brasileiros, ao dizer que acha que “não faz sentido que FMI [Fundo Monetário Internacional] e Banco Mundial imponham ajustes que inviabilizem políticas públicas de incentivo à agricultura em países pobres”.
Também foi saudado ao afirmar que é cada vez mais forte a consciência de que fracassou o chamado Consenso de Washington (conjunto de medidas pactuadas em 1989 por organismos financeiros multilaterais, como FMI e Banco Mundial, que serviu de base para políticas de estabilização econômica de países em desenvolvimento). “Quem, com arrogância, nos dava lições, não foi capaz de evitar a crise nos seus próprios países. Felizmente não vigoram mais as teses do Estado mínimo, sem presença reguladora. O mercado já não é mais a panaceia”.
Lula completou dizendo que não se pode trocar o neoliberalismo pelo “nacionalismo atrasado, opção da direita americana e europeia, culpando o imigrante pela corrosão social”.
Lula participou de uma mesa sobre o peso geopolítico da África, ao lado do presidente de Senegal, Abdoulaye Wade. “O Brasil não tem pretensão de ditar modelos para ninguém”. Mas, segundo ele, “nosso êxito pode ser um estímulo para a construção de um caminho alternativo, com desenvolvimento sustentável e igualidade social”.
“É hora de colocar o desenvolvimento e a democracia no centro da agenda africana”, afirmou o ex-presidente. “É urgente incorporar à cidadania milhões de africanos pobres, o que será importante também na recuperação da economia mundial”. A saída, segundo ele, é produzir alimentos. “Não há soberania efetiva sem segurança alimentar”.
Lula disse que leva ao fórum a mensagem de quem governou o país com a segunda maior comunidade negra do mundo (80 milhões de pessoas), menor apenas que a da Nigéria. Repetiu o pedido de desculpas feito quando da primeira visita ao Senegal, em 2005, por causa do processo de escravidão ocorrido no Brasil até o fim do século XIX. “A melhor maneira de reparar é lutar para fazer desse Continente um dos mais prósperos e justos do século 21”.
Na sequência, o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, afirmou ter “profundos desacordos” com os participantes do fórum porque é “um liberal, partidário da economia de mercado, e isso diz tudo". Entretanto, afirmou, o Fórum Social é importante porque “o mundo espera pela ideia que o salvará do caos”.
Presidente desde 2000, Wade afirmou que o Senegal melhorou muito desde então. “A renda per capita era de menos de US$ 0,5 mil em 1999. Hoje é de US$ 1,34 mil, duas vezes e meia o limite da pobreza”. O país também é autossuficiente na produção de alimentos.
“A aspiração à mudança é fundamental. E hoje a África está numa encruzilhada. A imagem é de continente pobre, mas é preciso corrigir essa ideia. Ela não é pobre - foi empobrecida”, sentenciou o presidente do Senegal. Wade disse que apoia a proposta de taxação do fluxo de capitais em 20%, o que geraria recursos para combater a pobreza. E defendeu que a África tenha um assento com direito a veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). “70% dos temas tratados [no conselho] são relativos à África”, disse o presidente senegalês.
Fonte: Agência Brasil
Publicado em 07/02/2011
São Paulo – Em sua participação na abertura da 11ª edição do Fórum Social Mundial, em Dacar, no Senegal, o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, repetiu um gesto feito pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em algumas ocasiões (inclusive no Senegal, em 2005) e pediu desculpas pela escravidão.
"Como já disse o presidente Lula, venho pedir perdão aos irmãos africanos pelo processo de escravidão no Brasil", disse Carvalho, provocando aplausos da plateia. Ele lembrou que o país avança para reconhecer sua ascendência histórica. "Para nosso orgulho, os afrodescendentes já são maioria da população brasileira."
O ministro também reconheceu que a pobreza ainda é um problema que "envergonha e vitima milhões de brasileiros" e indicou que o combate à miséria seguirá como prioridade no atual governo. "Somos milhões de trabalhadores, estudantes, servidores públicos, todos com a esperança de que outro mundo é possível", finalizou.
Sobre a crise institucional que afeta o mundo árabe e em especial o Egito, Carvalho preferiu a diplomacia. "O Brasil tem uma posição de cautela, observação e apoio à democracia", disse, para explicar por que o país não fará pedidos pela saída imediata do presidente Hosni Mubarak.
Ainda em seu discurso de abertura, Gilberto Carvalho lembrou que o Brasil abrigou as primeiras edições do fórum, em Porto Alegre (RS), em 2001, onde se discutiram alternativas que, depois, se mostraram úteis no combate, por exemplo, à crise mundial.
"A crise nos levou a fugir do caminho imposto pelo FMI [Fundo Monetário Internacional] e outros órgãos, que levou à recessão e miséria", disse Carvalho. "Era a fórmula da derrota. Mas vimos que nós podíamos encontrar o caminho verdadeiro, deixando de lado a cartilha neoliberal. Preferimos apostar no financiamento à produção e no consumo interno, que nos tirou da crise antes dos outros."
Carvalho disse que o Brasil compareceu ao fórum para ouvir e partilhar experiências. De acordo com ele, "governo nenhum salva país algum" sem ouvir a sociedade. "A crise internacional só confirmou que era preciso estabelecer novas relações econômicas, sociais e políticas no mundo. E o fórum foi esse laboratório."
Com agências
Publicado em 06/02/2011
Brasília - Participantes de 123 países se reúnem a partir deste domingo em Dacar, no Senegal, para a 11ª edição do Fórum Social Mundial (FSM). A África e os problemas sociais enfrentados pelos povos da região deverão dominar as discussões durante os seis dias do evento. São esperados cerca de 50 mil participantes, a maioria deles de países da região.
Durante o chamado Dia da África e da Diáspora, marcado para segunda-feira (7), as mesas de debate vão incluir temas como crise alimentar, subdesenvolvimento, agricultura familiar, saúde, seguridades social, acesso à água e a saneamento. Mas Oded Grajew, também membro do grupo que fundou o fórum, acredita que a discussão irá se desdobrar para outros temas.
“Teremos muitos debates sobre a realidade africana, mas isso também vai levar o encontro a discutir uma série de outros temas como a distribuição de renda, a injustiça social no mundo, as mudanças climáticas. A África tem sido grande vítima dessas questões”, aponta o sociólogo Cândido Grybowsky, um dos fundadores do FSM.
Os conflitos no Egito e a questão da democracia no mundo árabe também devem ocupar espaço na agenda do fórum.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que participou de todas as edições do FSM no Brasil, estará presente em Dacar. Como representante do governo brasileiro, a presidente Dilma Rousseff vai enviar o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Integram a equipe ainda a ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, e a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Helena de Bairros.
O primeiro FSM ocorreu em 2001, em Porto Alegre, como uma alternativa ao Fórum Econômico de Davos. Desde então, o Brasil sediou a maioria das edições do evento que tem como slogan Um Outro Mundo É Possível.
Grajew acredita que as discussões do FSM foram importantes para as “mudanças de rumo” dos quadros políticos da América Latina e a ênfase desses governos nas questões sociais. “Nas primeiras edições do fórum, o neoliberalismo já era uma das grandes discussões até ele se desmoralizar e hoje nem em Davos se fala sobre isso. Hoje a discussão é sobre um novo modelo de desenvolvimento, a questão de democracia, da governança global”, pontua.
Com informações da Rede Brasil Atual
Publicado em 02/02/2011
São Paulo – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai participar do Fórum Social Mundial 2011, realizado em Dacar, capital do Senegal. O evento ocorre de 6 a 11 de fevereiro e marca a segunda incursão do encontro altermundista ao continente africano.
Lula esteve em todas as edições brasileiras do FSM (em 2001, 2002, 2003 e 2005). Esta deve ser sua primeira participação em eventos internacionais após deixar o cargo. Ele deve participar de um painel sobre o continente africano no dia 7.
Para o sociólogo Cândido Grzybowski, um dos fundadores do FSM, entrevistado pela Agência Brasil, a presença de Lula deverá causar “alguma confusão” em Senegal.
“As pessoas vão estar muito curiosas para vê-lo. Hoje, ele tem uma visibilidade muito grande e acho que ele é até mais respeitado lá fora do que aqui”, opina. O organizador do fórum acredita que a ausência de Dilma Rousseff é natural, já que, dessa vez, o Brasil não é o anfitrião do evento.
O governo brasileiro será representado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Seu antecessor, Luiz Dulci, representou o governo brasileiro em edições na Índia e no Quênia.
Publicado em 01/02/2010
Como foi informado anteriormente, o Fórum Social Mundial em 2010 é descentralizado, vai ocorrer ao redor do mundo, na forma de fóruns regionais ou temáticos, e ao longo de todo o ano, e por isso alguns dos temas surgidos em Porto Alegre certamente contribuirão às discussões em outros lugares.
Neste fim de semana, por exemplo, Salvador deu continuidade aos debates, entre os dias 20 e 31 de janeiro – a Rede Brasil Atual acompanhou. Como balanço final dos trabalhos na capital gaúcha, separamos alguns dos assuntos que serão apresentados em outras partes do planeta e podem estar presentes na reunificação, em 2011, no Senegal.
O tema, que ganhou força com a crise financeira, manteve papel central neste ano, já com algumas derivações. Esteve presente nos discursos de diversos painéis a noção de que estamos vivendo uma crise civilizatória, na qual o sistema econômico é um dos pilares que estão por ruir. Essa crise afeta também as relações culturais, ambientais e sociais.
Como bem definiu o pensador português Boaventura de Sousa Santos, ainda não se sabe o que será o pós-capitalismo. "Há uma diferença no Fórum dos que pensam que a solução é o capitalismo benévolo, outros que pensam que a solução é ambiental, outros que pensam que deve ser num contexto pós-capitalista. O que é certo é que todos estão hoje convencidos no Fórum de que não podemos perder oportunidades de melhorar a vida das pessoas agora. Não temos de esperar uma aurora brilhante adiante porque, se não atuarmos já, provavelmente o 'lá adiante' não existirá".
A importância de não separar temas ambientais dos sociais e políticos fortaleceu-se a partir de Belém (2009) e este ano foi um dos guias da pauta. É consenso que não se pode tratar os assuntos divorciados entre si, como se o aquecimento global nada tivesse a ver com o sistema capitalista.
Dentro disso, outro assunto surgido no Fórum do ano passado foi citado em diversas discussões. Houve até mesmo uma importante mesa sobre o Bem Viver. A conclusão é de que, para o Bem Viver, um conceito indígena, não é preciso preencher os requisitos econômicos do sistema atual.
Mercia Andrews, ativista sul-africana, lembrou de uma província de seu país extremamente rica na produção de frutas e vinhos, mas com uma enorme concentração de terra e situações de extrema pobreza. Uma pesquisa conduzida por ela mostrou que a maioria das pessoas considerava que, para viver bem, bastaria uma pequena faixa de terra na qual pudessem produzir subsistência e uma escola próxima para os filhos.
Obviamente, o conceito e as necessidades variam de acordo com a região e a situação.
O tema do Bem Viver surgiu a partir da inserção dos povos andinos no debate. As sociedades originárias de Bolívia, Peru e Equador cultivam o respeito à natureza (Mãe Terra ou Pachamama) há muitos séculos e sabem que não pode haver divórcio entre ambiente e os modos de vida.
Sobre isso, duas intervenções foram interessantes. A primeira delas foi de Roberto Espinoza, do Fórum Crise de Civilização, do Peru, que fez duras críticas à atuação de empresas brasileiras nos países da América do Sul. Ele citou projetos da IIRSA, iniciativa de integração continental que tem megaprojetos ligando o Atlântico ao Pacífico ou instalando hidrelétricas em regiões amazônicas.
"Para sair da crise financeira se requer mais petróleo, mais mineração, mais pressões sobre a Mãe Terra. A alternativa de desenvolvimento sustentável tem de render contas de sua incapacidade de parar o suicídio planetário", completou.
A outra intervenção relevante no sentido do Bem Viver foi de Segundo Churuchumbi, da Confederação dos Povos Quéchua do Equador. Ele basicamente falou de algo que todos vinham reconhecendo como fundamental: a valorização dos conhecimentos tradicionais como alternativa ao atual modelo.
"Respeitar Pachamama (o planeta, numa tradução livre) significa a não-contaminação da água, do ar, de nosso solo, nossa casa, nossa vida. Não ao saqueio insustentável dos recursos naturais. Se seguirmos no atual modelo, a vida vai desaparecer desse planeta”, afirmou.
Boaventura de Sousa Santos destacou que a transição da natureza capitalista à natureza solidária – ou da Mãe Terra – é uma das cinco mudanças necessárias para chegar ao pós-capitalismo. O professor da Universidade de Coimbra manifestou que será na América Latina que deverá surgir uma globalização alternativa e que, para isso, o Brasil precisa reconhecer seu papel e deixar de omitir-se.
Se é preciso valorizar os conhecimentos tradicionais, está bem encaminhada a realização do próximo Fórum no Senegal. O continente africano é, possivelmente, o que melhor preservou esses conhecimentos, que até hoje passam de geração em geração pela cultura oral.
A construção da próxima etapa, até agora chamada de pós-capitalista, não será fácil – e muitos acreditam que sequer virá. De toda maneira, foi consenso neste Fórum um tema que já havia surgido anteriormente, que é da construção da hegemonia de baixo para cima, ou seja, da sociedade civil para o Estado.
Nesse ponto entra a importância da articulação entre os movimentos de maneira a formar um diálogo que, segundo alguns dos fundadores do processo Fórum Social Mundial, ainda não ocorreu efetivamente.
"Se você olhar os temas da nova agenda, não estamos falando dos temas 'clássicos' da esquerda. Não estamos falando só do Estado, estamos falando em repensar o Estado e se o Estado tem de ser a forma de organização. É uma forma hegemônica que parte do Sul para o Sul. O reconhecimento de que a transformação se faz com os movimentos, a partir deles e da articulação deles, é uma ideia que já é a construção de uma nova hegemonia", assinala Moema Miranda, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).
Além disso, considera-se que a construção da nova hegemonia só será possível caso se faça justiça com o passado, ou seja, deixe-se de lado de uma vez por todas os preconceitos, como o sexismo, o colonialismo e o racismo.
"O Fórum Social Mundial está no território intermediário entre o que já não é e o que ainda virá a ser. O velho e o novo se disputam permanentemente", assinalou a feminista uruguaia Lilian Celiberti.
Em resposta a João Pedro Stédile, do MST, que havia apontado a luta antiimperialista como foco, ela afirmou: "A diversidade nos coloca frente a nossas próprias contradições. A luta antiimperialista não basta. Precisamos da luta antirracista, antipatriarcal. A hierarquização das lutas é um dos temas que se colocam em disputa no Fórum".
Mais uma das questões levantadas por Boaventura de Sousa Santos é de que é preciso superar dois problemas ao mesmo tempo. Por um lado, luta-se pela formação de um novo modelo de mundo. Por outro, pela superação de injustiças do atual contexto, como a desigualdade social, a exclusão e a miséria.
Dentro disso ganha a cada ano mais seguidores a ideia de que os países devem parar de crescer. Ou seja, desenvolvimento econômico deixaria de ser o discurso-base para atingir melhorias sociais.
Publicado em 31/01/2010
Direto de Salvador - Depois de três dias de discussões, o Fórum Social Mundial Temático Bahia encerra-se neste domingo (31) com uma marcha prevista para o final da tarde.
Assim como em Porto Alegre, a convergência de crises e as oportunidades abertas por ela foram temas centrais. O formato dos eventos e do processo do Fórum teve menos destaque do que na região metropolitana da capital gaúcha, mas houve mais ênfase em debates sobre questões raciais e sobre os rumos do Brasil.
Outros eventos estão programados para o ano (clique aqui para conhecer a relação completa) e, em 2011, os ativistas cujo lema é "um outro mundo é possível" vão a Dacar, no Senegal.
Confira outras imagens:
Publicado em 31/01/2010
O ano eleitoral começou em Salvador, na visão de Moacir Gadotti, diretor-geral do Instituto Paulo Freire e membro do Comitê Internacional do Fórum Social Mundial. A presença de personalidades como o governador da Bahia Jacques Wagner e do ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Patrus Ananias aumentou a ênfase de debates relacionados ao futuro do país. Além disso, Gadotti destaca discussões relacionadas a oportunidades abertas pela convergência de crises econômica, ambiental e social.
Apesar da avaliação positiva sobre a realização do Fórum Temático na Bahia, o educador considera que houve mais problemas de organização em Salvador do que na região metropolitana de Porto Alegre e que falou "cara de Fórum" ao encontro. A dispersão de atividades entre hotéis e faculdades levou a se perder um dos objetivos do evento que são trocas e conversas entre ativistas fora das atividades, formando alianças e parcerias.
Gadotti discute ainda a ida a Dacar, capital do Senegal, em 2011. Com mais estrutura do que Nairóbi (Quênia), onde ocorreu o Fórum de 2007, a cidade deve fomentar debates sobre o continente africano.
Confira a entrevista:
RBA – A sequência de fóruns em Porto Alegre e Salvador teve qual efeito, em sua opinião? Houve um certo esvaziamento?
É preciso entender que o Fórum de 2010 é descentralizado, existem atividades ocorrendo no mundo inteiro, em dezenas de países e cidades. Ele segue o princípio da mundialização e da expansão do Fórum, mas tem um caráter específico, diferente daquele de 2009 e de como vai ser em 2011. Por isso houve, no Brasil, em dois lugares, na região metropolitana de Porto Alegre e em Salvador. Acompanhei a preparação de ambos e depois fui aos dois. No de Porto Alegre, toda a programação relativa aos 10 anos, ao balanço, foi muito bem cumprida. As expressões e a diversidade de pontos de vista colocadas mostrou que é importante que esse debate sobre o formato esteja sempre com a gente. Somos formados com uma cabeça e o Fórum pensa com outra. As sete cidades em Porto Alegre e Salvador cumpriram o que foi programado, mas acho que houve mais problemas de organização no Fórum temático da Bahia, foram maiores as dificuldades cujas razões não sei. Não se compara a experiência de organização de Porto Alegre com a de Salvador.
RBA – Quais foram as dificuldades?
Foi de não conseguir divulgar a programação em tempo hábil, de haver mudanças não confirmadas. Mas os debates ligadas a Crises e Oportunidades tiveram toda a programação executada dentro do previsto, com uma participação extraordinária, sempre com auditórios lotados, falas começando e terminando no horário. E a qualidade foi impressionante.
RBA – Por ter parte das atividades realizadas em hotéis, o clima foi bem diferente de outras edições e mesmo de eventos regionais e temáticos. O "espírito do Fórum" esteve presente?
Sou um otimista crítico. Participei de atividades em hotéis e na universidade. Recebi, do público, uma reclamação quando estava falando no teatro Carlos Gomes, na primeira atividade, em um auditório grande que não estava cheio por problemas de credenciamento no primeiro dia. Uma pessoa criticou o uso em excesso de hotéis. O que aconteceu em Salvador é que as atividades foram muito dispersas, não houve um espaço onde as coisas acontecem. A gente vem para o Fórum não só para falar, ouvir e debater, mas também para se encontrar (fora das mesas e conferências), construir alianças. Não houve aqui um espaço característico para dizer: "aquela é a cara do Fórum". Mas apesar de todas essas falhas, que acontecem em todos os eventos em maior ou menor grau, acho que o Fórum de Salvador foi importante e exitoso.
RBA – Por que?
Vou colocar dois pontos que me parecem importantes. O primeiro érelacionado a oportunidades criadas pelas crises, de repensar o modelo, paradigmas de vida e civilizatórios. Isso ficou muito mais claro com uma série de atividades. A importância de buscar outro modelo econômico. O outro ponto, sobretudo na mesa da qual participou o ministro Patrus Ananias e o governador do estado (Jacques Wagner) e integrantes da CUT, MST e de outros sindicatos, colocou-se sobretudo o futuro do Brasil. O debate sobre a crise discutiu seus efeitos para a humanidade, apontando alternativas, mas houve mesas que trataram de discussões sobre que país queremos. Se queremos continuar nesse ritmo de reformas necessárias ou se vamos mudar de rumo. Em Salvador, a questão política e eleitoral foi colocada e as contradições também. Participei, por acaso, porque estava passando, de uma reunião da Conlutas (entidade sindical ligada ao PSTU) em que movimentos de esquerda apresentando profundas críticas a governos municipais, estaduais e o federal. Mostraram o lado de muitos problemas que ainda existem. O fato é que o debate político foi muito mais forte do que em Porto Alegre, onde se ficou mais em temas como os dez anos, o Acampamento da Juventude, atividades de economia solidária extraordinárias e uma variedade temática extraordinária. Aqui a questão política foi muito forte e os grupos presentes aqui manifestaram seus pontos de vista com muita veemência. Achei o debate muito caloroso do ponto de vista crítico e eleitoral. Para mim, o ano eleitoral começou em Salvador.
RBA – Depois de Salvador, há outros eventos no mundo, mas em 2011 o Fórum ocorre em Dacar. Como o senhor vê essa nova ida ao continente africano?
O Fórum Social Mundial tem de ser mundial. Ele ainda é muito latino-americano e europeu, tem avançado nos Estados Unidos e no Canadá. Na Ásia e na África, temos muita dificuldade de expansão. Por isso foi a Nairóbi em 2007, mas antes a Karachi (Paquistão em 2006), em edição descentralizada, e Mumbai (Índia) em 2004. Há essa tentativa do Fórum. O continente africano é esquecido e precisamos colocá-lo no mapa de novo. Uma forma de se realçar as contradições e dificuldades dos povos africanos é ir para lá, ver gente, levar pessoas, levar jornalistas – mesmo que da mídia alternativa, já que a do mainstream não se interessa. É uma forma de o Fórum prestar um serviço aos povos da África. Aqui, o Fórum de Salvador também tinha esse objetivo de fazer uma ponte com os países africanos para poder ter mais ênfase nas relações Sul-Sul. Vamos nos preparar agora, tentar organizar melhor o programa. Pelos eventos internacionais que já sediou, Dacar tem mais estrutura do que Nairóbi, fica mais próximo das Américas e da Europa. Depois discutir, em 2009, a Amazônia e o clima, com uma latino-americanidade muito forte, vamos ter uma africanidade forte.
Publicado em 31/01/2010
Direto de Salvador - Pela dispersão de eventos e atividades no Fórum Social Mundial Temático Bahia, é impossível acompanhar todas as atividades. Com problemas de organização e mudanças de horários nos eventos, a cobertura de veículos alternativos e de organizações sindicais ajuda a saber o que está acontecendo.
Publicado em 30/01/2010
Direito à propriedade não pode ser maior do que o direito à vida (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
Direto de Salvador - O ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Patrus Ananias reafirmou, neste sábado (30) sua condição de pré-candidato ao governo de Minas Gerais pelo PT. Antes de participar de um evento em que representava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ausente por motivos de saúde, o ministro defendeu ainda a possibilidade de uma aliança com o PMDB.
"Defendo a prévia como instrumento democrático que faz parte da tradição do PT", disse. "Construímos o Partido dos Trabalhadores como partido democrático que respeita e valoriza seus filiados, seus militantes. Mas para haver uma prévia correta, democrática, é preciso que a outra parte também concorde", completou.
Patrus disse que há interesse em uma "aliança ética" com o PMDB, cujas bases ainda precisariam ser discutidas pelas partes. Ele desconversou sobre a possibilidade de o PT apoiar uma eventual chapa com o ministro das Comunicações Hélio Costa como cabeça de chapa.
Em sua fala no evento, Patrus defendeu a decisão do governo federal de apostar em programas sociais e no potencial de consumo da população pobre como forma de enfrentar a retração da economia no fim de 2008 e nos primeiros meses de 2009. O aumento no Bolsa Família foi uma das principais ações nesse sentido. "Vimos que a inclusão social fomenta o crescimento da economia", analisa.
Ele ainda afirmou ainda que o Brasil vive um momento novo em que ocorre uma "desprivatização do Estado". Historicamente, em sua análise, as estruturas públicas estiveram a serviço dos ricos, o que se inverteu durante o governo atual, do qual Patrus é ministro.
O ministro ainda defendeu que o direito à propriedade seja subordinado a garantias à vida e à dignidade. "Ninguém discute o direito de propriedade, mas está na hora de cobrar a função social da propriedade, para democratizar o direito à propriedade no País", defende. Ele lembra que esse caráter está institucionalizado na Constituição brasileira de 1988 e que tem relação, em sua visão, com reforma agrária, direito à moradia e a outros bens.
"Não podemos aceitar que o direito à propriedade seja maior que o direito à vida e à dignidade humana, como vemos. Os bens materiais têm de estar a serviço de um bem maior, o direito à vida", completa.
Ele aplica o princípio também ao lucro empresarial. Embora reconheça sua importância para o crescimento de empresas, o lucro não pode se sobrepor ao bem comum.
Publicado em 30/01/2010
O ex-diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique, Bernard Cassen, acredita que não se pode defender a redução das emissões de gases causadores de efeito estufa com defesa do livre comércio. Segundo o ativista, o transporte de produtos entre países é uma das maiores fontes de emissões.
Durante a mesa Diálogos e Controvérsias entre Atores Sociais e Representante do Governo Brasileiro, Cassen foi o único a se voltar unicamente às contradições entre governos e movimentos sociais, enquanto os demais listaram o que consideram conquistas e avanços alcançados no Brasil, durante o governo Lula.
Confira os principais trechos:
Todos que governam sabem que governar é escolher e as vezes fazer frente a contradições. Nunca, como no período recente, houve tantas contradições como entre os vários governos. Tivémos dois encontros importantes recentemente, uma da OMC (Organização Mundial do Comércio) em novembro em Genebra (Suíça) e o encontro (COP-15) de Copenhague (Dinamarca). São evenos totalmente contraditórios, nao se pode estar a favor da OMC e da redução das emissões de gases. A omc fomenta o aumento do comércio, então há o aumento do transporte, então há aumento das emissões. Não se pode ter ambos os discursos, é um ou outro.
O que está em jogo é um princípio fundamental do neoliberalismo, o livre comércio. É o inimigo número um do imperativo ambiental. Por que há tanta resistência dos governos em escolhar um? Um representante da OMC chegou a explicitar que a organização é favorável à redução de emissoes desde que isso não impeça a livre circulação de capitais financeiros e o livre comércio. Mas o fato é que isso fomenta emissões e a desigualdade no mundo.
É mais difícil pra governos de esquerda ou centro-esquerda escolherem por um deles, porque o livre comercio é bem visto, nao nos movimentos, mas nos governos. A Alca (Acordo de Livre Comércio das Américas) foi derrotada na América Latina, isso é uma grande vitória (dos movimentos sociais). Como é possível ser contra a Alca e a favor da OMC se são a mesma coisa?
Sabemos que a crise atual é econônica, social e ambiental. Se há um aspecto positivo da crise ambiental é que colocamos a sério o perigo climático. Há os clima-negacionistas, mas milhares de cientistas apontam que existem esses riscos, o que nos permite defender a diminução do comércio para reduzir trasnporte. Isso representa diminuir a distancia entre o local de produção e o de consumo, medida que promoveria soberania alimentar.
Se a crise econônica tem um ponto positivo é que as pessoas podem se perguntar por que há essa dupla linguagem. A redução do comercio também é fundamental para restaurar a democracia, porque o livre comercio sempre foi a arma dos fortes contra os fracos, sem proteção, e os primeiros têm interesse na manutenção do livre comércio.
Publicado em 30/01/2010
Direto de Salvador - Entidades reunidas na Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) prometem definir uma plataforma de propostas para as eleições presidenciais deste ano. No dia 31 de maio, uma Plenária Nacional dos Movimentos Sociais será realizada em São Paulo (SP), um dia depois de evento semelhante convocado pelas seis centrais sindicais reconhecidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
A definição da data se deu no Fórum Social Mundial de Porto Alegre (RS). Segundo Lúcia Stumpf, ex-presidente da União Nacional dos Estudantes e integrante da CMS, o objetivo é unificar pautas e forças para impedir o que consideram risco de retrocessos. "Precisamos não apenas manter as conquistas, mas garantir novas, como a reforma agrária, democratização da mídia e reformas estruturais que coloquem estado como indutor do desenvolvimento nacional", declarou na mesa Diálogos e Controvérsias entre Atores Sociais e Representante do Governo Brasileiro.
A reunião dos movimentos sociais será integrada à Conferência Naiconal da Classe Trabalhadora (Conclat) em 1º de junho, também na capital paulista.
Publicado em 30/01/2010
Jacques Wagner quer o FSM 2013, desde que passe no "vestibular de outubro" deste ano, sua reeleição (Foto: Manu Dias/Agecom Divulgação)
Direto de Salvador - O governador da Bahia Jacques Wagner (PT) criticou a cobertura da mídia que afirma que o Fórum Social Mundial Temático Bahia seria "chapa branca". A proximidade e a participação de autoridades do governo de diferentes instâncias são o motivo da análise, considerada como uma "armadilha" e uma "casca de banana" colocada pelos conservadores.
"Quero fazer um alerta para os companheiros do movimento social, para que não caiam na casca de banana desta dicotomia", sustenta Jacques Wagner. "Minha origem é do movimento social e participo deste governo, mas minha concepção de governo é que é preciso sustentar o diálogo social", detalhou. Ele acrescentou que ao apoiar o FSMT-BA o governo estadual não buscava cooptar os ativistas, mas dialogar.
Ele considera que não há contradição aí. "É falsa a contradição de tentar envergonhar vocês (ativistas) por estarem no hotel Pestana. Não caiam nesta empastela", alertou. Para o governador, o democracia é tensão e negociação e é necessário que os movimentos sociais estabeleçam a tensão necessária para que "os governos possam avançar". "É uma casca de banana dos conservadores, os mesmos que querem criminalizar movimentos sociais e colocar governantes em redoma de vidro, colocá-los apenas com os engravatados", criticou.
O governador atacou o modelo neoliberal que, ao reduzir ao máximo a regulação do Estado sobre a economia e flexibilizar a legislação trabalhosta, foi um dos responsáveis pela crise. Ele comparou a crise do sistema financeiro iniciada pelo colapso dos derivativos de crédito com a queda do muro de Berlim, em 1989, que marcou o fim do socialismo real em países do Leste europeu e na Rússia. "Quando caiu o muro de Manhattan, jogo ficou mais complexo e não mais simples, o que exige mais preparação. Não vamos vencer a batalha na guerra de slogan, mas em nossa capacidade de entender o mundo multipolar."
Na cerimônia de abertura do Fórum, na noite de sexta-feira (29), Wagner declarou que gostaria que o estado recebesse o evento centralizado em 2013. "Fica o convite desse governador, porque não sei se vou continuar a ser, para que 2013 o Fórum Social Mundial, em edição integral, aconteça nessa primeira capital do país: Salvador", disse.
Jacques Wagner que tenta a reeleição ao governo da Bahia neste ano, chamou o pleito de "vestibular de outubro".
Com informações da Revista Fórum
Publicado em 30/01/2010
Para manhã deste sábado (30), em Salvador (BA), constava na programação uma mesa para às 9h, no Hotel Pestana. Com o tema Diálogos e Controvérsias entre Atores Sociais e Representante do Governo Brasileiro, a presença do ministro do Desenvolvimento Social e Combate à fome está confirmada.
Às 11h30 o evento não havia começado, porque nem o ministro nem outros participantes chegaram.
Mesmo com o território do Fórum transportado para auditórios de hotéis com arcondicionado, o padrão de atrasos continua o mesmo. Mas com um toque especial.
Repórteres menos pacientes já produziram pelo menos três bate-bocas com organizadores e assessores pela demora e falta de banheiro e cafezinho no auditório do hotel. O público já tentou apressar a turma com palmas, apelos de "tá na hora" e alguma agitação.
Às 9h30, no auditório, um participante se queixava do atraso, ainda sem saber o que teria pela frente.
– E em Brasília, já são 10h30 – calculava, preocupado com a agenda do ministro.
– Mas você tem que entender – contra-argumentou o interlocutor, com a cadência de quem sabe, porque vive aqui – existe o horário de Brasília e outro, completamente diferente, que é o horário de Deus. Aqui, é o horário de Deus.
Se é assim, a gente espera.
Publicado em 30/01/2010
Direto de Salvador - Políticas específicas de promoção da igualdade racial no Brasil são um remédio amargo mas necessário na visão do professor Helio Santos. O presidente do Instituto Brasileiro de Diversidade (IBD) foi um dos precursores do debate de cotas para negros no ensino superior. Ele acredita que o debate a respeito de ações afirmativas mantém-se necessário mesmo em espaços como o Fórum Social Mundial porque não existe plena compreensão a respeito.
"É mais que necessário para a democracia e para a cidadania no Brasil", avalia Helio Santos. As políticas de promoção de igualdade são importantes para a "redução das vastas cotas de 100% para branco em várias instâncias", na definição do professor. "É um remédio amargo, mas as políticas específicas não são eternas. No Brasil, devem durar no máximo 25 anos, quando se tiver reduzido essas distâncias – que aqui não são sociais, são raciais – quando isso acontecer, podemos esgotar essas políticas e pensar em outras, generalistas."
O fato de haver um Fórum temático em Salvador (BA) promove, em sua análise, um importante efeito de fazer outros movimentos sociais perceberem a necessidade do debate. Cerca de 80% da população da cidade é afrodescendente. Essa tendência deve ser ampliada com a ida do evento, em 2011, para a África.
Confira a entrevista.
RBA – De que forma o fato de haver um Fórum em Salvador onde a população é majoritariamente negra pode favorecer que essa temática alcance outros movimentos sociais?
Helio Santos – A temática racial está na agenda há algum tempo, agora, ao ser inserida no Fórum Social Mundial, ganha um status importante. A relevância da temática etno-racial é algo inegável, mas é fundamental que outros atores se apercebam disso. A democratização se efetiva no Brasil e passa pela questão racial. A história do país mostra que não se consolida a democracia sem pensar em três populações, a indígena, negra e a imigrante que veio depois. O que eu chamo de ecologia social é não hierarquizar esses grupos é justamente o que buscamos.
RBA – O fato de o Fórum ir a Dacar, em Senegal, no continente africano, favorece o debate?
Na verdade a questão racial não fica circunscrita aos países, porque há uma conexão da África com todos os negros da diáspora negra. Toda a América Ibérica tem uma população negra importante, Colômbia, Venezuela, Brasil, Cuba. E os Estados Unidos também. O Fórum em Dacar é importante porque a realidade de África tem a ver com os três séculos de rapinagem de seu principal ativo, o ser humano raptado de lá.
RBA – Por que a defesa das cotas e de políticas de promoção da igualdade é necessário mesmo em espaços como o Fórum onde há um público sensibilizado à questão?
É necessário porque não há uma compreensão, por parte de todos, a respeito das cotas. quando coordenei um grupo que colocou o tema na agenda do Brasil nos anos 90, eu dizia que era contra as cotas para negros, mas a favor da redução das vastas cotas de 100% para branco em várias instâncias, conselhos, direções. Cotas radicais para brancos existem em vários contextos da sociedade brasileira. Então eu respondia, com um pouco de ironia, para dizer que temos de inovar e ousar nessa área. É um remédio amargo, mas as políticas específicas não são eternas. No Brasil, devem durar no máximo 25 anos, quando se tiver reduzido essas distâncias – que aqui não são sociais, são raciais – quando isso acontecer, podemos esgotar essas políticas e pensar em outras, generalistas. É mais que necessário para a democracia e para a cidadania no Brasil.
Publicado em 30/01/2010
Ativista vê necessidade de ações e manifestações em torno de pontos de consenso (Foto: Divulgação/TNI)
Direto de Salvador - O Fórum Social Mundial produz menos efeito atualmente do que há dez anos, afirma a filósofa e ativista Susan George. Ela defende, há pelo menos cinco anos, a necessidade de as organizações que lutam por outro mundo possível terem uma agenda de ações unificada, ainda que genérica. Dessa forma, ela se posiciona sobre o embate que se arrasta no FSM há alguns anos.
"O capital financeiro e as mudanças climáticas são inimigos de todos nós", resume Susan George. "Não há fronteira de fato entre movimentos diante da extraordinariamente pequena minoria das pessoas que lucram com isso em um curtíssimo prazo. Todos os outros devem pensar como tornar impossível para que mantenham seu programa funcionando", sugere.
Presidente do conselho de administração do Transnacional Institute (baseado em Amsterdã, na Holanda), Susan George é uma das personalidades de destaque do Fórum Social Mundial desde a primeira edição em 2001. Ela é também engajada na Associação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (Attac-França), que defende a cobrança da chamada Taxa Tobin sobre operações em bolsa.
Ela considera que faltam mais iniciativas como a manifestação de 20 de fevereiro de 2003. Na ocasião, ativistas de todo o mundo foram às ruas protestar contra a invasão unilateral dos Estados Unidos, Inglaterra e seus aliados ao Iraque, à revelia do Conselho de Segrança da Organização das Nações Unidas (ONU). Os protestos tornaram-se referência para o movimento pela articulação alcançada.
"Ninguém deve deixar de fazer o que faz; têm ações específica que fazem e isso é ótimo", pondera. "Mas em algumas ocasiões, precisamos de todos juntos em certas questões por um ou dois dias por ano. Não demanda enormes esforços políticos, mas sim consciência de cada organização."
Confira a entrevista.
RBA – Como a senhora vê o Fórum Social Mundial ao completar 10 anos?
Torci, por muitos anos, para que o Fórum Social Mundial pudesse adotar uma plataforma mínima usada por todo o mundo. Tudo bem dizer que é um espaço para a discussão, mas passamos o estágio em que nova pessoas chegam todo o tempo e tínhamos de trazê-los, às pressas, ao nosso diagnóstico. Agora, todos sabem do diagnóstico, tivemos esta crise enorme e todos puderam ver que o sistema neoliberal não está funcionando. Embora ainda haja necessidade de educação popular e que isso seja complicado, é tempo para propostas e ações e também eu diria para visibilidade. Meu objetivo como foi em Porto Alegre, ainda que não se saiba se essas ideias serão ou não aceitas, é que tenhamos uma plataforma mínima genérica em que todos pudéssemos concordar: clima, justiça, emprego, fome, esse tipo de coisa. E que pudessemos organizar ações em torno disso e que tivéssemos um senso de convergência, de alianças, que significariam reproduzir o que fizémos no dia 20 de fevereiro de 2003 contra a invasão do Iraque. Talvez na reunião do clima neste ano, não sei bem, não quero dizer o que devemos fazer, mas quero que aconteça.
Apesar de ser uma grande coisa no Brasil, não é em outras partes do mundo. O Fórum Social Mundial é hoje muito mais discreto do que foi.
RBA – Quais são os entraves ou resistência para aceitar essas propostas? A senhora saberia identificar isto no Comitê Internacional?
Realmente não sei, e não quero julgar, porque não estou no Comitê Internacional, não estou muito interessada em política. Estou tentando fazer educação popular, criar alianças, colocar pessoas juntas, não sou mais uma organizadora. Tenho 75 anos, não pareço, mas não tenho tempo para isso. Não sei a resposta de sua pergunta. Para mim, é autoevidente há cinco anos e escrevo isto regularmente, mas demora para as coisas acontecerem.
RBA – O que a senhora imagina como visibilidade? Ao Fórum ou aos movimentos sociais?
A todos. O que tento promover é o que a mim parece óbvio. Nenhum de nós pode vencer por si só. Trabalhadores não podem garantir suas conquistas por si só, agricultores não ganham as suas, mulheres, ecologistas etc. Ninguém deve deixar de fazer o que faz, têm ações específica que fazem e isso é ótimo. Mas em algumas ocasiões, precisamos de todos juntos em certas questões por um ou dois dias por ano. Não demanda enormes esforços políticos, mas sim consciência de cada organização de querer lutar com mulheres, agricultores, empreendedores solidários etc. porque o capital financeiro e as mudanças climáticas são inimigos de todos nós. Não há fronteira de fato entre movimentos diante da extraordinariamente pequena minoria das pessoas que lucram com isso em um curtíssimo prazo. Todos os outros devem pensar como tornar impossível para que mantenham seu programa funcionando.
RBA – Do primeiro Fórum para hoje, a organização do FSM mudou muito, como a senhora vê isso?
Em 2001, a Fundação Ford financiava partes dos custos e havia muitos voluntários trabalhando. Hoje, somos hospedados em bons hotéis, a organização é bem diferente. Não me importa onde eu fico hospedada, mas é curioso que agora tem patrocínio de banco, de empresas. Está mais institucionalizado, é uma boa coisa (para imagem) apoiar o Fórum. Não é um problema, mas é muito diferente de dez anos atrás.
Publicado em 29/01/2010
Uma velha discussão sobre o papel do Fórum Social Mundial (FSM) é se ele deve ser um espaço de movimentos ou um movimento em si. A diferença é simples e fundamental. No primeiro modelo se discute coletivamente e cada entidade define sua agenda de ações em separado. A outra proposta é de que o Fórum aja como um movimento organizado que agrega distintas correntes e é uma grande representação da sociedade civil.
Em sua carta de princípios, que até o atual momento é respeitada, o Fórum é um espaço para reflexão e, ao fim das discussões, cada movimento (ou um grupo de movimentos) pode emitir suas opiniões, desde que expresse que não fala em nome do FSM.
Esta semana, o professor da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos, propôs a criação do Fórum Social Mundial em Movimento, uma espécie de selo. Como exemplo, ele apontou que o FSM em Movimento poderia ter enviado em seu nome uma ou mais propostas para reuniões de relevo como o COP-15, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, ocorrida em dezembro último em Copenhague.
No encerramento desta primeira semana de Fórum em 2010, em Porto Alegre, um dos fundadores do processo, Chico Whitaker, rebateu a ideia de Boaventura de Sousa Santos – antes que se gerem falsas brigas, foi uma resposta sem agressividade, sem rusgas, com uma polêmica saudável. Para Whitaker, transformar o Fórum em movimento seria gerar a morte do mesmo.
Leia a seguir a entrevista concedida à Rede Brasil Atual.
RBA - Quais as discussões que surgiram aqui e que vão influenciar as discussões ao longo do ano?
Houve aqui uma recuperação de algumas ideias que surgiram em Belém e que foram aprofundadas aqui, iluminadas.
A primeira é a ideia do Bem Viver. É uma ideia que explodiu. Saiu de uma proposta indígena que, para muita gente, era inclusive desconhecida, apesar de estar escrita nas constituições da Bolívia e do Equador. Aqui isso ganhou relevo. Com uma proposta de uma profundidade enorme porque, no fundo, se liga à própria crítica radical do mundo que vivemos. Eles chamam isso de crise de civilização. Há quem discorde porque pense que isso que vivemos não é civilizado. De qualquer maneira, é uma crise de paradigmas. E essa proposta do Bem Viver, que é uma noção claríssima de relação humana, natureza e de que você não pode viver bem se os outros não viverem bem. Como luz para o mundo que nós queremos, foi uma iluminada muito grande.
Outra ideia que a meu ver foi debatida em vários setores é a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento tradicional do capitalismo. Que é a ideia de puro crescimento. É preciso mudar mecanismos, mudar lógicas, e põe em questão até o modelo brasileiro, que está baseado no crescimento econômico. Para quem é isso, para onde vamos?
Um outro ponto que foi revalorizado aqui é dos bens comuns da humanidade. Isso é muito interessante e muita gente não tem a mais remota ideia do que seja. Nós mesmos descobrimos recente. São esses bens que não podem ser mercantilizados nem privatizados. Então, a gente tem de garantir a descapitalização e a desmercantilização daqueles que já o foram e proteger outros para que estejam sempre disponíveis para todos.
Uma ideia com muita clareza foi o problema da limitação dos Estados nacionais, da luta pura e simplesmente política, pura e simplesmente partidária.
RBA - Quais foram os acertos e os erros dessa estratégia de espalhar eventos pela região metropolitana de Porto Alegre?
Tudo tem vantagens e desvantagens. Nos fóruns normalmente se faz tudo no mesmo espaço. Porque aí fica tudo mundo se vendo, muita gente discutindo, e a possibilidade de entrosamento é muito maior.
Mas a hipótese de descentralizar tem outras vantagens. Ir para sete cidades da região metropolitana de Porto Alegre fez novas discussões surgirem. Muitos painelistas que estavam aqui foram para as outras cidades e inclusive se juntou com outros fóruns.
Para o tipo de fórum como esse, que não é o Fórum Social Mundial (é um fórum regional que integra o FSM; neste fim de semana há outro em Salvador e pelo menos quatro dezenas ocorrerão ao redor do mundo até dezembro), há mais vantagens do que desvantagens.
Uma ideia que surgiu aqui, e que é óbvia, é por a moçada no centro das coisas. O Acampamento da Juventude teria de ficar mais perto. Mas também não acompanhei as tratativas de onde colocar o acampamento, e isso não é fácil. Os jovens acharam ótimo.
RBA - Tem gente que fica feliz quando o Fórum tem esse modelo descentralizado porque pode falar que foram só 30 mil pessoas, que o Fórum está acabando. O que você acha disso?
É o engano total de informação. Aliás, correu na imprensa uma informação totalmente falsa de que esse era o Fórum Social Mundial. Automaticamente, se é o FSM, e o anterior teve 150 mil, por que esse aqui teve só 30 mil? Não é o Fórum Social Mundial.
É um fórum local. Com 30 mil pessoas, é um bruto sucesso. Quem fala isso não olha para o conjunto. Hoje, nesse painel, se você somar cada um que vai sair daqui e vai para os fóruns ao redor do mundo, vai chegar facilmente a 300 mil pessoas. É uma explosão de crescimento.
RBA - Uma provocação dentro daquela velha discussão entre espaço e movimento. O professor Boaventura de Sousa Santos propôs que se faça o FSMM, ou seja, o Fórum Social Mundial em Movimento. Como se vê essa ideia?
É um equívoco da parte dele. Parece até que ele não “pescou” qual é o princípio do Fórum. Acho até que ele pescou, mas não sei porque insiste nisso. Ele quer que o Fórum seja um protagonista político como entidade, mas fazer isso é acabar com o Fórum.
Todas as grandes internacionais que existiram no mundo acabaram por causa disso. Porque ficaram em torno do princípio da identidade. Quiseram se afirmar em suas posições e começaram a se expurgar tanto que acabaram isoladas.
O Fórum é outra coisa. É a jogada da alteridade, da diversidade, da aceitação e da valorização da diversidade.
Essa ideia do Boaventura, veja, acho ótimo que saiam coisas concretas. Mas estão saindo. Hoje, enquanto a gente fazia esse encontro, houve a Assembleia dos Movimentos Sociais, com 1.500 pessoas discutindo. Precisa passar pelo Fórum isso?
O engano que a Assembleia dos Movimentos Sociais fez durante muito tempo, e que agora já não faz mais, é fazer a assembleia deles e dizer que aquelas são as conclusões do Fórum. Não pode fazer isso. Porque as conclusões são milhares.
O Fórum não tem de ter uma declaração final. Tem de ter 50, mas cada uma com seu conteúdo e sua forma. E cada uma será isso que o Boaventura pede, que é a sociedade em movimento. Espero que, mais cedo ou mais tarde, ele se convença disso. Ainda vou escrever muita coisa sobre isso e espero continuar a ter um diálogo com ele. Quero um diálogo pessoal para dizer: “Boaventura, pensa bem, você está querendo matar o Fórum ou expandir o Fórum? Se quiser, continua pedindo essas coisas que em um ano ele está morto”.
RBA - Indo ao campo das ideias, no auge neoliberal era quase uma vergonha falar em outro mundo possível. Palavras como comunismo e socialismo haviam sido jogadas fora. Qual foi a participação do Fórum no resgate dessas ideias?
Houve uma época de perplexidade total no mundo diante da queda do Muro de Berlim. Noventa anos de história foram abaixo. Escreveram “o fim da história”. Agora é mercado. E O Fórum falou “opa, devagar com o andor”. Vamos recuperar o modelo. Mas o quê? Aquele modelo? Não, claro que não, tem de rever. Agora, David Harvey falou aqui que “outro comunismo é possível”.
Na verdade, há uma recuperação da necessidade de montar modelos. Mas nunca mais montar modelos prontos e acabados que vão ser implantados de cima para baixo. A contribuição do Fórum para isso foi grande. Tomar o poder de cima para baixo e implantar um modelito de sociedade não funciona. Temos de fazer de dentro para fora, de baixo para cima, a mudança social geral. Que implica até a mudança de comportamentos pessoais.
Publicado em 29/01/2010
Direto de Salvador - Acordos Sul-Sul, formados entre países em desenvolvimento não podem ser pensadas como alternativas à superação da crise, porque já são uma realidade no mundo, segundo o economista Jorge Bernstein. O professor da Universidade de Buenos Aires acredita que é necessário repensar acordos de integração regional para que não repitam estruturas que levam o mundo a crises constantes.
Ele acredita que o mundo vive uma convergência de crises, incluindo problemas econômicas, sociais, ambientais etc., que está mais perto do início do que do fim. "Mesmo o diretor do FMI diz que a aparente saída da crise é fruto da intervenção dos Estados, mas não há projeção de crescimento", sustenta.
Nesse sentido, Bernstein criticou uma frase disposta em um cartaz ao fundo da mesa do seminário Crises e Oportunidades, no Fórum Social Mundial Temático Bahia. A frase "Sociedade e governos debatem o mundo pós-crise" sugeriria, para o economista, que "estamos em 2040", porque novos choques sobre o sistema financeiro são previstos por analistas.
Bernstein lembra que os acordos regionais na África, América do Sul e, especialmente, a Ásia envolvem, somados, cerca de 4 bilhões de pessoas. Seja com finalidades energéticas, comerciais ou militares, esses acordos podem representar avanços, mas também retrocessos econômicos e sociais, se reproduzirem modelos convencionais.
O exemplo citado pelo economista envolve acordo entre os governos chinês e indonésio de comércio de petróleo. "Há segurança energética de um lado e lucros do petróleo de outro, mas os produtos industriais chineses vão invadir a Indonésia, causando possivelmente pobreza e miséria", prevê.
O economista acredita que as relações Sul-Sul são uma forma de desconexão e religação de países que precisa ser pensada em um contexto do que ele considera ser a "decadência do centro do mundo". "Não há a substituição de uma potência por um mundo multipolar, mas uma despolarização em que aparecem espaços de desenvolvimento não controlados pelas grandes potências", avalia. Nesses espaços é que poderiam ser fortalecidas relações entre países em desenvolvimento.
Publicado em 29/01/2010
Direto de Salvador - A crise financeira internacional e a negociação de medidas para conter o aquecimento global indicam o aumento do protagonismo de países do Sul. Para o subsecretário geral do Instituto da Organização das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (Unitar), Carlos Lopes, o cenário atual e a constituição do G-20 demonstram a pujança desses países e que as nações ricas reconhecem não serem capazes de superar a crise sozinhas.
"O G-20 mostra que os países mais industrializados do planeta não podem resolver os problemas econômico-financeiros por eles mesmos por várias dimensões", explica. Entre os fatores citados por Lopes, está o nível de poupança, em dólar, mantido pela China e o dinamismo de economias periférias, incluindo até a África do Sul, cuja bolsa de valores movimenta mais recursos diários do que a Bovespa e diversos países europeus.
A avaliação foi parte da primeira mesa do seminário Crises e Oportunidades, no Fórum Social Mundial Temático Bahia, discutiu como estratégias e alianças de países do Sul, periféricos, poderiam representar alternativas.
Para Lopes, nascido em Guiné-Bissau, as principais economias do Sul vem ganhando espaço em organismos multilaterais e no cenário internacional vem ganhando espaço, especialmente desde as rodadas de negociação da Organização Mundial do Comércio (OMC). "No fim da reunião de Copenhague, quem se sentou quando tudo estava desmoronando? Estados Unidos, Brasil, China, Índia. Em Seattle, em 1999, eram os mesmos atores", sustenta. Apenas essas nações foram capazes de obter conquistas em disputas e arbitragens da OMC.
Um passo para consolidar esse aumento de importância, a reforma da ONU, depende da aprovação, por dois terços da assembleia geral dos países membros. Apesar das possibilidades de veto pelos membros permanences do Conselho de Segurança – EUA, China, Rússia, Inglaterra e França – uma eventual proposta que alcance apoio da maioria das nações dificilmente seria vetado. "Seria um suicídio para a imagem desse país", avalia.
Para isso, ele ressalta a importância da organização de uma aliança entre Índia, Brasil e África do Sul, com os "candidatos" mais fortes de cada continente.
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