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SP: nível de reservatórios está abaixo do período pré-crise. Especialista vê riscos

"Se esses níveis baixos continuarem, acredito que caminhamos para uma nova crise hídrica", diz o coordenador do Coletivo de Luta pela Água Edson Aparecido, sobre a situação da Grande São Paulo
por Felipe Mascari, da RBA publicado 07/06/2018 13h48
"Se esses níveis baixos continuarem, acredito que caminhamos para uma nova crise hídrica", diz o coordenador do Coletivo de Luta pela Água Edson Aparecido, sobre a situação da Grande São Paulo
EBC
Reservatório Cantareira

Pior situação está no reservatório Cantareira, que opera com 45,7% da sua capacidade, sem considerar o volume morto

São Paulo – Os seis reservatórios da região metropolitana de São Paulo estão operando com nível inferior a 2013, período que antecedeu a crise hídrica de 2014 e 2015. Com a queda no volume de chuvas neste ano, o estado pode pode ter problemas em relação ao abastecimento, segundo o coordenador do Coletivo de Luta pela Água Edson Aparecido.

Ele aponta que, de acordo com o índice de armazenamento da Sabesp em sua página na internet, nesta quinta-feira (7) a pior situação é a do sistema Cantareira, que opera com 45,7% da sua capacidade, sem considerar o volume morto. No mesmo período, em 2013, o sistema contava com 58,8%. Em maio, o reservatório recebeu 13,7 milímetros (mm) de chuva – cada milímetro corresponde a um litro de água por metro quadrado. A pluviometria média histórica do mês é de 78,6 mm.

A mesma situação é encontrada nos outros cinco sistemas de armazenamento (Alto Tietê, Guarapiranga, Alto Cotia, Rio Grande e Rio Claro). "Se esses níveis baixos dos reservatórios continuarem, acredito que caminhamos para uma nova crise hídrica", afirma Aparecido, que critica a falta de medidas do ex-governador Geraldo Alckmin e da Sabesp para a prevenção de outra situação de desabastecimento.

Outro sistema que opera na faixa de "atenção" (quando o volume está entre 40% e 60% da capacidade total) é o do Alto Tietê, com 58,7%. Em 2013, no mesmo dia 7 de junho, o reservatório operava com 63,2%. Os níveis de pluviometria no mês de maio também estão abaixo da média: foram 13,9 mm contra 76,2 mm.

O especialista aponta que não houve redução das perdas de água por parte da Sabesp, muito menos um programa efetivo para a ampliação do reuso. "O desperdício da Sabesp continua na casa dos 30% (da água tratada). A empresa também só faz campanha de redução de consumo quando a crise chega e continua com uma política de atender a demanda, sem trabalhar sobre a oferta que tem, mantendo o risco grande de outro desabastecimento", explica.

Em 2013, os níveis de pluviometria também estavam abaixo da média mensal – o que foi utilizado como argumento do governo Alckmin para justificar a falta de água. Entretanto, Edson Aparecido diz que a atual falta de chuvas não pode servir de desculpa para outra crise. 

"Sempre dissemos que não era uma crise hídrica, mas de gestão, pois a lógica que norteia a ação da Sabesp é de vender água de qualquer forma. Não há uma política de reuso, não foram criadas as cisternas urbanas, onde você poderia acumular água nos períodos de chuva. As medidas que seriam estruturantes não foram tomadas e a lógica que permaneceu foi de buscar água longe ou realizar obras que causam impactos ambientais", afirma.

Em março deste ano, a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp) autorizou aumento da tarifa da Sabesp em caso de mudança significativa no consumo de água. Ou seja, se a população reduzir muito o consumo e isso tiver impacto negativo nas receitas da companhia, a conta de água vai subir.

O coordenador do coletivo acredita que esse é um dos motivos de ter havido redução das campanhas de racionamento. "Como a Sabesp é uma empresa que tem uma gestão que olha para o mercado, quando diminui o consumo de água, impacta em suas receitas e a companhia se desvaloriza na bolsa de valores. Essa lógica privada nos submete a uma nova crise", critica.

Em junho de 2017, os reservatórios apresentavam os seguintes números: Cantareira, 67,9%; Alto Tietê, 59,1%; Guarapiranga, 85,2%; Alto Cotia, 103,2%; Rio Grande, 91,2%, e Rio Claro, 102,3%. Porém, os níveis dos mananciais apresentaram queda acentuada de um ano para cá (confira o gráfico abaixo).

 

Apesar dos números baixos, o especialista não acredita que o governo estadual anuncie outra crise tão brevemente. "Em ano eleitoral, a tendência é que o governo não assuma uma crise, como fez o Alckmin em 2014. Porém, enquanto era só a população da periferia tinha intermitência no abastecimento, o governo negava a crise."

Em nota, a Sabesp afirma que possui um sistema mais robusto do que antes da crise de 2014 e 2015 e que permite atender cerca de dois milhões de pessoas. "Nos últimos dois meses, a empresa inaugurou duas obras que ampliam a segurança hídrica da Região Metropolitana de São Paulo: a interligação Jaguari-Atibainha, que permite transferir água entre duas bacias distintas conforme a necessidade, e o Sistema São Lourenço, que amplia a oferta de água tratada em até 6.400 litros por segundo, atendendo uma área que antes era abastecida principalmente pelo Cantareira", diz o texto.