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Contra a privatização

Para ativistas, Nestlé deve ser punida pela contaminação e esgotamento de fontes

Em carta de apoio às mulheres do MST, que ocuparam a empresa para denunciar os perigos da privatização, ambientalistas mineiros lembram que a empresa é ré em processos e defendem novas investigações
por Cida de Oliveira, da RBA publicado 22/03/2018 16h42, última modificação 22/03/2018 16h48
Em carta de apoio às mulheres do MST, que ocuparam a empresa para denunciar os perigos da privatização, ambientalistas mineiros lembram que a empresa é ré em processos e defendem novas investigações
Arquivo/ONG Nova Cambuquira
Contra a privatização da água.jpg

Para os ativistas, a Nestlé contamina e esgota as fontes de água mineral e por isso deve ser severamente punida na exata proporção dos danos causados

Brasília – Organizações em defesa da água das estâncias hidrominerais de Cambuquira, Caxambu, Lambari e São Lourenço, no Sul de Minas Gerais, que representam a união dos povos da serra da Mantiqueira em defesa dos recursos hídricos, divulgou hoje (22), Dia Mundial da Água, carta em apoio às militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST).

Na terça-feira (20), elas ocuparam instalações da Nestlé em São Lourenço, em ato simbólico para denunciar a entrega de fontes para o controle de empresas multinacionais.

Após o ato, a Nestlé Waters, que é uma das patrocinadoras do 8º Fórum Mundial da Água, que termina amanhã (23), em Brasília, afirmou que houve danos à empresa, sem feridos, e disse estar comprometida com a administração sustentável dos recursos hídricos e o direito humano à água. E que realiza estudos e monitora as retiradas para não afetar as bacias hidrográficas locais e os aquíferos – o que ambientalistas da região contestam.

"Compreendemos que os danos causados pela Nestlé ao patrimônio natural dos brasileiros, como a contaminação e esgotamento das fontes de água mineral, devem ser severamente punidos e a empresa responsabilizada, na exata proporção dos danos causados. A Nestlé já é ré em vários processos e reafirmamos a necessidade de que ela continue sendo investigada por outros crimes", afirmam. 

Para a organização, a ação das mulheres impediu a realização de um evento da multinacional que, além de “sugar e roubar as nossas águas, tentaram, de forma ilegítima, usurpar o nome que é, em última análise, a identidade do nosso movimento, que cada vez mais se fortalece”.

A Nestlé havia agendado para a data de hoje uma cerimônia de entrega das medalhas do projeto que a multinacional nomeou "Guardiões das Águas 2018", “em clara usurpação do movimento que cada vez mais cresce, os legítimos Guardiões das Águas das Estâncias Hidrominerais” do sul mineiro.

Segundo o documento, os povos das águas da Mantiqueira agradecem às 600 mulheres militantes do MST pelo apoio à causa, reiterando o que há alguns os ativistas locais defendem: “água é direito humano, bem comum!”

Confira a íntegra da carta:

CARTA ABERTA ÀS MULHERES DO MST

Nós, os povos das águas da Mantiqueira, agradecemos às 600 mulheres militantes do MST pelo apoio à nossa causa e que, por isso, vieram à Nestlé em São Lourenço/MG, reiterar o que há alguns anos estamos dizendo: água é direito humano, bem comum!

O direito ao protesto pacífico é assegurado pelas nossas Leis, inclusive pela Constituição Federal. O Estado, por meio das forças policiais, não pode impedir a livre manifestação, nem o direito de ir e vir dos manifestantes. Por isso, solidarizamo-nos com as corajosas mulheres que vieram se manifestar a favor de nossa causa e repudiamos os atos da Polícia Militar, que tentou cercear esse direito constitucionalmente garantido!

Compreendemos que o dano ao patrimônio privado é crime e a empresa deve, se quiser, buscar a devida recuperação através da Justiça. Se comprovada a culpa, os que picharam a fábrica ou destruíram algum equipamento devem indenizar a empresa na exata proporção do dano causado e responder perante a Justiça por outros crimes que possam ter praticado.

Contudo, ainda mais, compreendemos que os danos causados pela Nestlé ao patrimônio natural dos brasileiros, como a contaminação e esgotamento das fontes de água mineral, devem ser severamente punidos e a empresa responsabilizada, na exata proporção dos danos causados. A Nestlé já é ré em vários processos e reafirmamos a necessidade de que ela continue sendo investigada por outros crimes. 

A diferença entre essas duas situações está no enorme contingente de policiais postos antecipadamente a serviço da proteção do patrimônio da empresa privada e a inércia das autoridades em apurar os crimes praticados por aquela empresa. Crimes esses fartamente denunciados e documentados. A diferença está também no grande número de pessoas "de bem" que se levantam ferozmente para proteger os direitos (legítimos) da poderosa empresa multinacional, mas se calam e fingem não ver os gravíssimos crimes que essa mesma empresa pratica, há anos, contra o nosso país e, em particular, contra os Povos das Águas da Mantiqueira. É esse comportamento de subserviência ao capital estrangeiro e desprezo pelo nosso patrimônio natural que se chama 'subdesenvolvimento'.

Hoje, no dia 22/03, a Nestlé iria realizar uma cerimônia de entrega das medalhas do projeto que eles nomearam "Guardiões das Águas 2018", em clara usurpação do movimento que cada vez mais cresce, os legítimos Guardiões das Águas das Estâncias Hidrominerais de Cambuquira/MG, Caxambu/MG, Lambari/MG, São Lourenço/MG, dentre outras, consistente na união dos povos das águas da Mantiqueira em defesa de seus recursos hídricos. Não bastante sugar e roubar as nossas águas, tentaram, de forma ilegítima, usurpar o nome que é, em última análise, a identidade do nosso movimento, que cada vez mais se fortalece! Contudo, graças a ação das mulheres do MST, o evento foi cancelado!

Os verdadeiros Guardiões das Águas suspiram e agradecem!

PORQUE MULHERES E ÁGUA NÃO SÃO MERCADORIAS!

 Guardiões das Águas, 22/03/2018 - Dia Mundial da Água