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Para biólogo, com leis ambientais 'frouxas', seres vivos estão ameaçados

Integrante do Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental, Renato Gaban Lima, afirma que rompimento da barragem em Mariana poderia ter sido evitado
por Redação RBA publicado 19/11/2015 14h10, última modificação 23/11/2015 15h59
Integrante do Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental, Renato Gaban Lima, afirma que rompimento da barragem em Mariana poderia ter sido evitado
O Tempo/Folhapress
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Biólogo acredita que o Brasil deva sentir os efeitos do crime ambiental de Mariana por muitos anos

São Paulo – “As regras ambientais estão ficando cada vez mais frouxas, e a tragédia de Mariana deve servir de alerta”, afirma o biólogo e professor do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Federal de Alagoas Renato Gaban Lima, em entrevista à repórter Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

Lima, que é membro do Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental (Giaia), diz que o rompimento da barragem da Samarco em Mariana (MG), no último dia 5, poderia ser evitado por um projeto de engenharia. Segundo ele, uma barragem não se rompe antes de apresentar muitos sinais claros.

“Observando o que aconteceu, conseguimos detectar alguns problemas nas etapas de licenciamento. A comunidade de Bento Rodrigues (situada logo abaixo da represa de rejeitos de mineração), por exemplo, não foi considerada a área mais afetada e nem sequer havia um plano de evacuação da área. Como é que estoura uma barragem dessa, com esse potencial de matar um rio? Era para ter uma segunda barragem de contenção. Então, houve problema de fiscalização e planejamento”, denuncia.

O Gaia estudará os impactos ambientais motivados pela catástrofe e reunirá informações para futuros processos judiciais, criminais e administrativos, além de servir como base para aprofundamento das regras de licenciamento ambiental. “A ideia do nosso grupo é gerar dados que possibilitem um amadurecimento desse processo de licenciamento também”, acrescenta.

O biólogo acredita que o Brasil deva sentir os efeitos do crime ambiental de Mariana por muitos anos, e ressalta a perda de diversidade na região. “Vamos supor que tenha ocorrido a extinção de alguma espécie, ou que tenha afetado as espécies ameaçadas de extinção. Essa perda de diversidade não tem volta. É como se fôssemos no Museu do Louvre e jogássemos fogo. Não tem retorno.”

“Eu vejo um impacto dessa magnitude como algo lamentável. As regras ambientais estão ficando cada vez mais frouxas. Se observarmos as alterações no Código Florestal, ou novo código de mineração, que estão votando em regime de urgência no Congresso, se observarmos essas mudanças nas regras sobre a demarcação de terras indígenas, tudo isso é um retrocesso na nossa legislação ambiental”, diz.

Segundo o professor, o principal problema é que os congressistas não dão voz aos cientistas, como na alteração do Código Florestal, no qual, para ele, os parlamentares votaram a favor dos interesses dos "donos do poder". "Estamos vivendo em um momento perigoso, porque quem paga os crimes ambientais é a população. A população precisa se posicionar e, de alguma maneira, participar dos processos de decisão. Esperamos que isso gere uma discussão que norteie o Brasil nos processos ambientais ou na legislação.”

O Gaia está concentrado nos meios bióticos e está divido em duas vertentes principais: uma relacionada à perda de habitat, tanto os ambientes relacionados ao rio, quanto à parte terrestre. “Uma parte que afeta mesmo as comunidades de organismos relacionados diretamente aos rios. Uma outra interferência está relacionada à poluição, pois essa lama possui metais pesados, o que contamina o ambiente. Se essa lama fosse inerte, mas teríamos mais o impasse de alteração dos ambientes.”

Lima também afirma que além do desastre na região, há a possibilidade de levar a contaminação dos metais pesados encontrados nos rejeitos para outros lugares dentro e fora do Brasil. “Diversas aves, como os maçaricos e batuíras, nesta época do ano, fogem do hemisfério norte e se alimentam no nosso litoral. Se eles começarem a acumular metal pesado, isso significa que o Brasil irá exportar o material contaminado para outros países, porque os animais irão voltar para seu lugar de origem. Então, o impacto pode ter uma influência fora do Brasil.”

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