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Sem testes suficientes

CTNBio adia liberação do eucalipto, mas aprova novos milhos transgênicos

Pressionada por manifestantes, comissão retira da pauta aprovação das árvores geneticamente modificadas; em compensação, aprova variedades de milho da Monsanto e da Dow
por Cida de Oliveira, da RBA publicado 06/03/2015 09:39, última modificação 06/03/2015 09:45
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Pressionada por manifestantes, comissão retira da pauta aprovação das árvores geneticamente modificadas; em compensação, aprova variedades de milho da Monsanto e da Dow
Fábio Torresan/Embrapa
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Nativo da Austrália, o eucalipto retira muita água do solo. Para os ambientalistas, a versão transgênica, que antecipa o crescimento, acelera também a desertificação

São Paulo – A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) liberou ontem (5), a comercialização, para consumo humano e animal, de duas novas variedades de milho transgênico. O DAS-40278-9, da Dow AgroSciences Sementes e Biotecnologia, e NK 603 X T25, da Monsanto. De acordo com os fabricantes, a vantagem do primeiro é ser tolerante ao herbicida 2,4-D, e o segundo, aos herbicidas glifosato e glufosinato de amônia.

No entanto, de acordo com a coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, há fortes indícios de que esses venenos, ao serem pulverizados, contaminam a lavoura.

"A cada vez que se comer uma pamonha e outros alimentos feitos com esse milho, vão se acumulando partículas associadas ao desenvolvimento de doenças neurológicas, conforme apontam estudos da Fiocruz e da Universidade Federal do Mato Grosso", explica um dos coordenadores da Campanha, o agrônomo Leonardo Melgarejo.

Os subprodutos do milho, como o fubá, a farinha e tudo o que se produz com eles, passam então a concentrar partículas causadoras de alterações na função de diversas glândulas no organismo, causar má formação fetal, além de ativarem células cancerígenas; daí estarem sendo proibidos em diversos países.

O 2-4 D é um herbicida cujo nome científico é ácido diclorofenoxiacético, uma das substâncias que compõem o famoso "agente laranja". Foi desenvolvido durante o programa da guerra química e biológica na Segunda Guerra Mundial e largamente utilizado na Guerra do Vietnã, deixando sequelas até hoje.

Outro integrante da Campanha, o agricultor Cleber Folgado, lembra que o Ministério Público Federal, após audiência pública com a participação da presidência da CTNBio e alguns de seus membros, solicitou que a comissão aguardasse análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que pode proibir o uso do 2,4-D no Brasil, e a realização de mais estudos. "A CTNBio não levou nada disso em consideração", diz.

Eucalipto

O eucalipto transgênico, que deveria ser liberado hoje, foi excluído da pauta. Segundo a assessoria de imprensa da CTNBio, o adiamento se deu em função das fortes pressões. Ao longo desta quinta-feira (5), integrantes da Via Campesina e outras entidades que compõem a Campanha se reuniram em frente ao escritório da CTNBio, em Brasília.

Na manhã de ontem, também, cerca de mil mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e militantes de movimentos sociais do campo e da cidade dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ocuparam, a empresa FuturaGene Brasil Tecnologia, da Suzano Papel e Celulose, no município de Itapetininga (SP).

A árvore geneticamente modificada foi desenvolvida para atingir o ponto de corte, principalmente para a produção de celulose, após 7 anos de seu plantio.

Segundo Leonardo Melgarejo, o eucalipto é uma árvore que retira muita água do solo, tanto que é plantado em solos alagados em várias regiões de fronteira no Rio Grande de Sul.

A versão transgênica, que altera células para apressar o crescimento, retira ainda mais água do solo, adiantando o processo de desertificação principalmente em áreas com baixa disponibilidade hídrica. Sem contar que vai prejudicar gravemente a atividade de apicultura, fonte de renda para muitos pequenos produtores. Isso porque diversas espécies de abelhas que vivem em regiões de eucaliptos.

"Faltaram estudos de balanço hídrico e de seu impacto sobre dezenas de variedades de abelha, que participam do processo de polinização. Sabe-se apenas que o Brasil, segundo exportador global de mel orgânico, perderá a certificação e os mercados".

De acordo com ele, o Brasil descumpre acordo internacional onde as liberações comerciais de árvores transgênicas restam em moratória até a conclusão de estudos de impacto ainda em andamento.

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