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Para especialista, Grande SP viverá dois anos de seca e vai perder o Cantareira

Antônio Carlos Zuffo, da Unicamp, afirma que represas que formam o sistema já estarão operando apenas com o volume morto a partir desta sexta-feira (11)
por Renan Fonseca, do ABCD Maior publicado 11/07/2014 15h13
Antônio Carlos Zuffo, da Unicamp, afirma que represas que formam o sistema já estarão operando apenas com o volume morto a partir desta sexta-feira (11)
luis moura/folhapress
falta de água

Se o volume morto for desconsiderado, as represas do Sistema Cantareira estariam com reservatórios a menos de 1%

São Bernardo do Campo – Má gestão e descuido provocaram uma situação de crise e degradação ambiental nos principais reservatórios de água da Grande São Paulo. O Sistema Cantareira, o primeiro a falecer com a estiagem, deve operar a partir de hoje (11) apenas com o chamado volume morto. Isso porque ontem atingiu 18,7% de sua capacidade – se o volume morto for desconsiderado, as represas desse sistema estariam com reservatórios a menos de 1%. Especialistas e órgãos que acompanham a situação do sistema argumentam que até 2015 as represas não devem se recuperar. Serão dois anos de seca para a metrópole.

No ABC paulista, o Sistema Rio Grande, braço da represa Billings, já está sofrendo as consequências da seca e mudanças na forma de abastecimento. Ontem, o reservatório, que até o mês passado estava em operação com mais de 95% de sua capacidade, apresentava 90%. O Alto Tietê, segundo da lista de estiagem, já está funcionando com apenas 24%.

O grupo técnico que acompanha a gestão das bacias paulistas vem alertando o governo estadual para a redução da retirada de água do Cantareira. O alerta se estendeu também para o Alto Tietê e outras bacias. Ao contrário da expectativa do governador Geraldo Alckmin (PSDB), o grupo apontou que o Cantareira tem baixa possibilidade de voltar à capacidade normal em 2015. Conforme boletim divulgado pelo grupo, as chances são de 25%.

Em três documentos expedidos desde maio, os técnicos solicitam “medidas de restrição de uso para usuários localizados nas bacias do PCJ  (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e Alto Tietê”. Diante disso, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo) reduziu o volume captado no Cantareira, enquanto o governador incentivava os paulistanos a economizar no consumo de água em troca de descontos na conta mensal. Em todos os momentos, Alckmin garantiu que não recorreria ao racionamento.

Só volume morto

O diretor do Departamento de Hidrologia da Faculdade de Engenharia da Unicamp, Antônio Carlos Zuffo, explicou hoje que o Sistema Cantareira vai operar apenas com volume morto. Conforme o especialista, a estiagem de agora é cíclica e pode durar pelos próximos anos. “Entre as décadas de 1930 e 1960, o Cantareira passou por um período de seca. Depois veio um período menos seco, o que transmitiu uma falsa sensação de segurança”, lembrou.

Em 2004, segundo o professor, o estado ampliou a vazão do sistema e a capacidade foi consumida rapidamente. “O que houve foi uma super expectativa em um período de redução da precipitação pluviométrica”, disse.

Viável somente após cinco anos

"Se para resolver o problema de falta d’água em São Paulo o governo estadual deve recorrer à engenharia, o resultado não seria sentido em menos de cinco anos." Essa é a perspectiva do professor Zuffo. Além disso, ele analisa que uma das táticas colocadas em prática por Alckmin pode não surtir efeito.

Para minimizar a retirada de água do Cantareira, o governador disse recentemente que conta com a “população e gestão”. “Estamos substituindo o Cantareira pelo Guarapiranga e Alto Tietê”, afirmou o governador em evento político na inauguração do trecho Leste do Rodoanel, semana passada. Conforme Alckmin, ainda neste mês será retirado 0,5 metro cúbico de água por segundo do Sistema Rio Claro, que abastecia Santo André, para atender à Grande São Paulo. Em setembro, o mesmo volume será captado no Rio Grande, na represa Billings. E em outubro, 1 metro cúbico por segundo do Sistema Guarapiranga. “Esse volume não conseguiria atender à Grande São Paulo”, salientou Zuffo, acrescentando que, somados os volumes, chegaria próximo à metade do que é consumido em Campinas.

“É uma política de governo militar: desenvolver os sistemas e depois pagar pelo prejuízo e degradação ambiental”, criticou o advogado e ecologista Virgílio Farias. “Se tivermos de esperar pela chuva aguardada pelo governador para encher o Cantareira, corremos risco de inundações”, argumentou, explicando que a solução seria apostar na despoluição da Billings e utilizar sua água.

Perto do ABC, a falta de água já é sentida nas casas. Na Vila Liviero, a menos de um quilômetro da divisa da capital com São Bernardo, ao menos uma vez por semana falta água. “Deixo de lavar o quintal, lavo roupa uma vez por semana e mesmo assim, quando não sai água da torneira, tenho de economizar ainda mais no consumo”, disse a dona de casa Maria Madalena Mediotti, 54 anos.